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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Contracultura cristã - A mensagem do Sermão do Monte, John R. W. Stott


Cristo e a lei (vs. 17,18)


Ele começa dizendo-lhes que não imaginem, nem por um momento, que ele veio para revogar a lei ou os profetas, isto é, todo o Velho Testamento ou qualquer parte dele. O modo como Jesus enunciou esta declaração negativa dá a entender que alguns já pensavam exatamente isso que ele agora estava contradizendo. Embora o seu ministério público tivesse começado há tão pouco tempo, os seus contemporâneos estavam profundamente perturbados com a sua suposta atitude para com o Velho Testamento. Talvez a controvérsia sobre o sábado já tivesse explodido (tanto o incidente das espigas arrancadas no sábado quanto a cura do homem da mão mirrada, também no sábado, são colocados por Marcos antes mesmo da escolha dos doze). Certamente, desde o começo do seu ministério, as pessoas foram atingidas por sua autoridade. "Que vem a ser isto?" perguntavam. "Uma nova doutrina! Com autoridade ele ordena aos espíritos imundos, e eles lhe obedecem" (Mc 1:27). Portanto, era natural que muitos perguntassem que relação havia entre a sua autoridade e a autoridade da lei de Moisés. Eles sabiam que os escribas submetiam-se à lei, pois eram "mestres da lei". Dedicavam-se à sua interpretação e declaravam não haver qualquer outra autoridade além daquela que citavam. Mas, com Jesus, a coisa não era tão clara assim. Ele falava com autoridade própria. Gostava de usar uma fórmula jamais usada por qualquer profeta antigo ou escriba contemporâneo. Ele apresentava alguns de seus mais impressionantes pronunciamentos com "Em verdade digo", falando em seu próprio nome e com sua própria autoridade. E que autoridade era esta? Será que estava se colocando como uma autoridade que se opunha à sagrada lei, à palavra de Deus? Parecia assim, para alguns. Por isso a pergunta, enunciada ou não, à qual Jesus agora respondia inequivocamente: Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas.
Muita gente continua perguntando, hoje em dia, embora de diferentes maneiras, que relação existe entre Jesus e Moisés, entre o Novo e o Velho Testamento. Considerando que Jesus aproveitou a oportunidade, falando explicitamente sobre o assunto, não devemos nos acanhar de imitá-lo. Ele veio (observe-se, a propósito, que ele tinha consciência de que viera ao mundo com uma missão) não para revogar a lei e os profetas, deixando-os de lado ou anulando-os, nem tampouco para endossá-los de maneira estéril e literal, mas para cumpri-los.
O verbo traduzido por "cumprir" (plërösai) significa literalmente "encher" e indica, como Crisóstomo disse, que "suas palavras (sc. de Cristo) não eram uma revogação daquelas primeiras, mas uma exposição e o cumprimento delas". Para captarmos o sentido total dessas palavras, precisamos nos lembrar de que "a lei e os profetas", isto é, o Velho Testamento, contêm diversos tipos de ensinamentos. A relação de Jesus Cristo com eles difere, mas a palavra "cumprimento" abrange todos eles.

Primeiro, o Velho Testamento contém ensinamento doutrinário. "Tora", geralmente traduzido por "lei", significa, na verdade, "instrução revelada"; e o Velho Testamento realmente instrui-nos sobre Deus, sobre o homem, sobre a salvação, etc. Todas as grandes doutrinas bíblicas se encontram nele. Mas, ainda assim, foi apenas uma revelação parcial. Jesus o "cumpriu" todo, no sentido de completá-lo com a sua pessoa, seus ensinamentos e sua obra. O Rev. Ryle resumiu-o assim: "O Velho Testamento é o Evangelho em botão, o Novo Testamento é o Evangelho em flor. O Velho Testamento é o Evangelho no limbo; o Novo Testamento é o Evangelho na espiga."

Segundo, o Velho Testamento contém profecia preditiva. Grande parte dela contempla o dia do Messias, profetizando-o por meio de palavras ou apresentando-o em figuras e tipos. Mas não passa de previsões. Jesus a "cumpriu" integralmente, no sentido de que o predito aconteceu com ele. A primeira declaração do seu ministério público foi: "O tempo está cumprido . . ." (Mc 1:14). Suas próprias palavras aqui, (Eu) vim, denotam essa mesma verdade. Repetidas vezes ele declarou que as Escrituras deram testemunho dele, e Mateus enfatiza isto mais do que qualquer outro evangelista, através da sua repetida fórmula: "Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta . . ." O clímax foi a sua morte na cruz, na qual todo o sistema cerimonial do Velho Testamento, sacerdócio e sacrifício, cumpriu-se perfeitamente. Então as cerimônias cessaram. Sim, como Calvino com razão comentou: "Apenas o uso deles foi abolido, pois o seu significado foi confirmado mais plenamente." Não passavam de uma "sombra" do que estava por vir; a "substância" pertencia a Cristo.

Terceiro, o Velho Testamento contém preceitos éticos, ou a lei moral de Deus. Mas eles são freqüentemente mal interpretados e até mesmo desobedecidos. Jesus os "cumpriu", em primeiro lugar, obedecendo-os, pois ele "nasceu sob a lei" e estava determinado (como já dissera João Batista) a "cumprir toda a justiça". "Ele, na verdade, nada tinha a acrescentar aos mandamentos de Deus", escreveu Bonhoeffer, "exceto isto, que ele os guardou". Ele fez mais do que obedecê-los pessoalmente; ele explica o que a obediência implicará para os seus discípulos. Ele rejeita a interpretação superficial da lei, dada pelos escribas c fornece ele mesmo a verdadeira interpretação. O seu propósito não é mudar a lei, muito menos anulá-la, mas "revelar toda a profundidade do significado que pretendia conter". Portanto, ele a cumpre, anunciando as exigências radicais da justiça de Deus". É isto que ele destaca no restante de Mateus 5, apresentando exemplos, conforme veremos.
Em cada geração da era cristã, sempre houve aqueles que não conseguiram acomodar-se à atitude de Cristo para com a lei. O famoso herege do segundo século, Marcion, que reescreveu o Novo Testamento, eliminando as referências que este faz ao Velho, naturalmente apagou esta passagem. Alguns dos seus discípulos foram mais além. Atreveram-se até a inverter o seu significado, mudando os verbos de modo que a sentença, então, passasse a dizer o seguinte: "Eu vim, não para cumprir a lei e os profetas, mas para aboli-los!" Seus correlativos hoje em dia parecem ser aqueles que abraçaram a chamada "nova moralidade", pois declaram que a própria categoria da lei fica abolida para o cristão (embora Cristo tenha dito que não veio para aboli-la), que nenhuma lei tolhe agora o povo cristão, exceto a lei do amor, e que na realidade a ordem para amar é agora o único absoluto. Sobre estes, voltarei a falar mais tarde. Por ora, basta enfatizar que, de acordo com este versículo (v. 17), a atitude de Jesus para com o Velho Testamento não foi de destruição e descontinuidade mas, antes, de continuidade construtiva, orgânica. Ele resumiu sua posição numa simples palavra: não "abolição", mas "cumprimento".
O apóstolo Paulo ensinou esta mesma verdade com muita clareza. Sua declaração de que Cristo é "o fim da lei", não significa que agora estamos livres para desobedecê-la, mas justamente o oposto. Significa, antes, que a aceitação de Deus não é através da obediência à lei, mas através da fé em Cristo, e a própria lei dá testemunho destas boas novas.
Após declarar que o seu propósito em vir era o cumprimento da lei, Jesus prossegue, apresentando a causa e a conseqüência disto. A causa é a permanência da lei até que seja cumprida (v. 18); e a conseqüência é a obediência à lei, que os cidadãos do reino de Deus devem prestar (vs. 19, 20).
Isto é o que Jesus tem a dizer sobre a lei que ele veio cumprir: Porque em verdade vos digo: Até que o céu e a terra passem, nem um i (yod, a menor das letras do alfabeto grego, quase tão pequena como uma vírgula) ou um til (keraia, um acento, sinal que distinguia algumas letras hebraicas de outras) passará da lei, até que tudo se cumpra. Sua referência agora era apenas "à lei" e não "à lei e aos profetas", como no versículo anterior. Mas não temos razão para supor que estava deliberadamente omitindo os profetas; "a lei" era um termo compreensivo para o todo da revelação divina no Velho Testamento. Nenhuma parte dela passará ou será posta em desuso, diz ele, nem uma simples letra ou parte de uma letra, antes que seja inteiramente cumprida. E este cumprimento não se completará até que o céu e a terra passem, pois um dia eles passarão, num grandioso renascimento do universo. Então, o tempo, como nós o conhecemos, deixará de existir, e as palavras escritas da lei de Deus já não serão mais necessárias, pois todas as coisas que ela encerra estarão cumpridas. Assim, a lei tem a duração do universo. O cumprimento final de uma e o novo nascimento do outro coincidirão. Ambos "passarão" juntos (parelthê é repetido). Jesus não poderia ter declarado com mais clareza sua própria opinião sobre as Escrituras do Velho Testamento.




Texto Retirado do Livro A Mensagem do Sermão do Monte - Contracultura Cristã, John R. W. Stott, Editora:ABU, Preço 37,00 no SITE: http://www.casadabibliaonline.com/sistema/listaprodutos.asp?IDLoja=9297&Y=5492455001833&Det=True&IDProduto=2383775&q=a-biblia-fala-hoje---a-mensagem-do-sermao-do-monte--contracultura-crista-

A mensagem de 2 Timóteo - Tú Porém... John R. W. Stott


Os homens maus são descritos (vs. 2-9)


Pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, 3 desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, 4 traidores, atrevidos, enfatuados, antes amigos dos prazeres que amigos de Deus, 5 tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. 6 Pois entre estes se encontram os que penetram sorrateiramente nas casas e conseguem cativar mulherinhas sobrecarregadas de pecados, conduzidas de várias paixões, 7 que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade. 8 E, do modo por que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto a fé; 9 eles, todavia, não irão avante: porque a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu com a daqueles.
O restante deste primeiro parágrafo do capítulo 3 dedica-se a uma perfeita descrição de tais homens. Paulo delineia particularmente a conduta moral (vs. 24), a observância religiosa (v.5) e o zelo proselitista (vs. 6-9) deles.

a. A conduta moral (vs. 2-4)
Nestes três versículos, o apóstolo emprega nada menos do que dezenove expressões, com as quais descreve os homens iníquos, responsáveis pelos "tempos difíceis". Talvez fique um pouco cansativo analisar minuciosamente essa descrição, definindo cada termo de per si, mas prestemos atenção à primeira e à última frase simultaneamente. A primeira diz que são "egoístas", ou "amigos de si próprios" (philautoi); e a última (v.4) diz que não são "amigos de Deus" (philotheoi), o que deveriam ser. De fato, em quatro das dezenove expressões entra o termo "amor" (phil), sugerindo que o que está fundamentalmente errado com essas pessoas é que o seu amor está mal dirigido. Ao invés de serem em primeiro lugar "amigos de Deus" são "egoístas" (amigos de si mesmos), "avarentos" (amigos do dinheiro), "amigos dos prazeres" (v.4).
Entre essas quatro expressões acham-se outras quinze, as quais primordialmente descrevem o colapso no relacionamento entre os homens.
As três primeiras ampliam o significado do amor egocêntrico. Os homens egoístas tornam-se "jactanciosos", "arrogantes", e "blasfemadores". A primeira palavra significa "fanfarrões" ou "gabo-las" (alazones), e a segunda "altivos" ou "soberbos" (hyperèphanoi), o que conduz, naturalmente, à terceira: "difamadores" (blasphemoi), porque os que têm uma opinião exagerada sobre si mesmos inevitavelmente menosprezam os outros e deles falam mal.
As cinco palavras seguintes podem ser convenientemente agrupadas, pois parecem referir-se à vida familiar e especialmente à atitude que alguns jovens adotam em relação a seus pais. Os termos gregos estão todos na forma negativa, já que têm o prefixo a que é um prefixo negativo, enfatizando assim a trágica ausência de qualidades que até mesmo naturalmente seriam de se esperar. As duas primeiras são: "desobedientes aos pais", a quem os filhos devem honrar, conforme o ensino da Escritura, a quem devem obedecer, pelo menos enquanto de menor idade; e "ingratos", destituídos de elementar estima. A seguir vem a palavra que é traduzida por "irreverentes" (anosioi), porque hosios normalmente significa "devoto" ou "piedoso" em relação a Deus. Mas assim como o adjetivo similar eusebès (reverente) às vezes era usado no grego clássico em alusão ao respeito filial, o contexto sugere que talvez este seja o sentido aqui. "Desafeiçoados" (astorgoi) é traduzido por Phillips (CIN) "sem afeição natural". Esta mesma palavra aparece em Rm 1: 31, tendo na ERAB esta última tradução; na BV, porém, a expressão é "sem coração", porque faz parte da ordem natural estabelecida que pais e filhos se amem reciprocamente. A última palavra deste grupo de cinco é "implacável" (aspondoi), traduzida também por "irreconciliáveis" (ERC). Descreve a situação de pessoas (talvez a referência ainda seja mais a jovens) em tal revolta que nem ao menos querem pensar na possibilidade do diálogo. Numa sociedade ideal a atitude dos filhos para com seus pais deveria ser de obediência, gratidão, respeito, afeição e bom senso. Nos "tempos difíceis" estas cinco coisas inexistem. As últimas sete palavras da lista ultrapassam obviamente o recôndito familiar. A primeira é "caluniadores" (diaboloi, literalmente "diabos"), traduzida tam¬bém por "mentirosos" (BJ). Eles são culpados do pecado de falar maldades contra os outros, especialmente na sua ausência. Eles são também "sem domínio de si" (akrateis), ou "incontinentes" (ERC), isto é, carentes de autocontrole; "cruéis" (anèmeroij ou "indomáveis"; e "inimigos do bem" (aphigalathoij ou "sem amor para com os bons" (ERC). Finalmente, eles são "traidores" (palavra usada em Lucas 6:16 para o traidor Judas), "atrevidos" (inteiramente obstinados em palavras e ações) e "enfatuados" ou "orgulhosos" (ERC), conotando "auto-importância", "arrogância". De forma que voltamos ao mal básico, com o qual esta terrível lista começou: o orgulho.
Todo este comportamento errado no que se refere às relações humanas, esta atitude de desobediência, ingratidão, desrespeito, desumanidade para com os pais, juntamente com esta falta de autocontrole, de lealdade, de prudência e de humildade, isso é a inevitável conseqüência de um egocentrismo sem Deus. Comentando sobre o significado de philautos ("egoísta"), o Rev. Trench refe-re-se a um certo teólogo puritano que "compara o homem egoísta ao ouriço, o qual, tornando-se uma bola, mostra somente espinhos aguçados aos que o vêem, ao mesmo tempo que guarda para si mesmo, interiormente, todo o pelo macio e quente". Aquele que é "presunçoso", "soberbo" e "orgulhoso", com certeza jamais se sacrificará em prol dos outros. O mandamento de Deus, como é com clareza declarado em sua lei moral, é que amemos a Deus em primeiro lugar (com todo nosso coração, com toda a nossa alma, com toda a nossa mente, e com todas as nossas forças); em segundo lugar, devemos amar ao nosso próximo; e, por último, a nós mesmos. Se invertermos a ordem, pondo o terceiro em primeiro lugar, isto é, o "ego" antes de tudo e Deus no fim, o nosso próximo no meio certamente sofrerá.
Assim, a raiz do problema em "tempos difíceis" é que os homens são "egoístas em extremo" (CIN), "amigos de si próprios" (philautoí), um "termo aristotélico . . . para um amor próprio desordena-do". Somente o evangelho oferece uma solução para este problema, porque somente o evangelho promete um novo nascimento, uma nova criação, o que implica numa mudança radical de egoísta para altruísta, uma verdadeira reorientação da mente e da conduta, tornando-nos fundamentalmente centrados em Deus, ao invés de egocêntricos. Assim, pois, estando Deus em primeiro lugar e o ego em último, amamos o mundo que Deus ama, e procuramos dar e servir como ele o faz.

b. A observância religiosa (v.5)
E talvez surpreendente a descoberta de que pessoas como estas, que não cumprem os princípios gerais aceitos pela sociedade civilizada, e que são indiferentes à lei de Deus, possam também ser religiosas. Mas é verdade. Na história da humanidade, ainda que isso seja algo vergonhoso de se confessar, a religião e a moralidade têm estado mais distantes entre si do que juntas. A Escritura nos testifica esse fato de forma inconteste. Os grandes profetas éticos dos séculos VII e VIII antes de Cristo se investiram contra Israel e Judá nesse ponto. Amós foi o primeiro, expondo a anomalia existente no reinado de Jeroboão II: um grande incremento na religião e na injustiça, simultaneamente. Os israelitas, disse Amós, "se deitam ao pé de qualquer altar sobre roupas empenhadas, e na casa do seu Deus bebem o vinho dos que foram multados (subentende-se: injustamente)" (Am 2: 8). Em outras palavras, no próprio desempenho de suas atribuições religiosas faziam uso de roupas e vinho, dos quais não tinham o direito moral de usufruir, A imoralidade, verdadeiramente, invadira as suas práticas religiosas.
Isaías deplorou a mesma coisa em Judá. Através dele, Deus enviou a seu povo o seguinte recado:
"As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer. Pelo que, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos: cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão; pleiteai a causa das viúvas" (Is 1:14-17).
O Senhor Jesus teve que proferir uma denúncia parecida com esta contra os fariseus, o povo ultra-religioso de seus dias: "limpais o exterior do copo e do prato, mas estes por dentro estão cheios de rapina e intemperanças" (Mt 23: 25). Ou seja, eram meticulosos em proteger a pureza cerimonial de seus utensílios, contudo o que comiam e bebiam com os seus limpos utensílios tinha sido adquirido com suja ganância e com desonestidade.
A mesma epidemia ainda grassava entre as pessoas que Paulo está descrevendo. Elas preservavam exteriormente uma "forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder" (v.5). Evidente-mente elas participavam do culto da igreja. Cantavam os hinos, diziam o "amém" às orações, e deitavam dinheiro na bandeja das ofertas. Tinham aparência e palavras notoriamente piedosas. Mas era forma sem poder, aparência externa sem realidade interna, religião sem moral, fé sem obras.
A verdadeira religião combina forma e poder. Não se trata de uma forma externa, sem poder; nem, por outro lado, o poder moral é enfatizado a ponto de desprezar ou dispensar formas externas corretas. A verdadeira religião combina esses dois aspectos. Promove uma adoração que é essencialmente "espiritual", que nasce do coração, mas que se expressa em cultos públicos na comunidade, com conseqüências no comportamento moral. De outra forma, não é somente sem valor, mas é verdadeiramente uma abominação ao Senhor. Não é de se admirar que Paulo acrescente: "foge também destes". Não que Timóteo devesse evitar todo contacto com os pecadores, porque Jesus mesmo fora "amigo dos publicanos e pecadores", e se fosse para Timóteo evitar associação com eles, teria então que sair do mundo (cf. 1 Co 5: 9-12). Paulo se refere porém aos que estão dentro da igreja, já que está descrevendo "uma espécie de cristianismo pagão"; e Timóteo deveria manter distância dos tais, a quem se poderia chamar de "pecadores religiosos". Na verdade, poder-se-ia ir adiante. Quem vive pública e notoriamente no mal, deveria ser disciplinado e, se permanecer no erro, expulso da igreja (cf. 1 Co 5:5-13).

c. O zelo proselitista (vs. 6-9)
É realmente espantoso que as pessoas que Paulo vem descrevendo, cheias de malícia e de amor próprio, totalmente afastadas de Deus, não somente eram pessoas religiosas, mas também ativas propagadoras da religião. Tal era a situação!
O zelo proselitista dessas pessoas parece estar retratado como uma operação militar. O verbo traduzido por "cativar" (aichmalotizõ) significa, propriamente, "fazer prisioneiro de guerra", contudo o seu significado pode ter sido amenizado com o sentido de "levar, iludir, desencaminhar". Em todo o caso, o método daquelas pessoas não era direto e aberto, mas furtivo, secreto, manhoso. Agiam como larápios. Entrando, sem dúvida, pela porta dos fundos e não pela principal, esses mascates da heresia introduziam-se em casas particulares. Escolhendo uma hora em que os homens estavam ausentes (provavelmente no trabalho), eles concentravam a sua atenção em "mulherinhas". Este expediente, comenta o Rev. Ellicott, era "tão velho quanto a queda do homem" , pois a serpente enganou Eva primeiro. Assim também agiam os gnósticos, e esta tem sido a tática costumeira dos caixeiros-viajantes religiosos desde então, inclusive das Testemunhas de Jeová em nossos dias.
Paulo refere-se às mulheres tomadas como vítimas com a palavra gynaikaria, "mulherinhas", um termo de desprezo para as mulheres ociosas, tolas e sem firmeza. A fraqueza delas tinha dois aspectos. Em primeiro lugar, eram moralmente fracas, "carregadas de pecados, afetadas por várias paixões". Os seus pecados eram-lhes, ao mesmo tempo, um fardo e uma tirania; e os falsos mestres, infiltrando-se nas casas delas, tocavam nos sentimentos de culpa e de fraqueza que elas tinham. Além disso, em segundo lugar, elas eram intelectualmente fracas, instáveis, crédulas e ingênuas. Eram do tipo de mulheres que "aprendem sempre" mas que também "jamais podem chegar ao conhecimento da verdade". Incapazes assim de alcançar qualquer convicção firme, assemelhavam-se a pequenos barcos jogados para cá e para lá pela tormenta (cf. Ef 4: 14). Em tal estado de confusão mental, é fácil dar ouvidos a qualquer mestre, até mesmo a um trapaceiro. "Não era o amor à verdade que as impelia a aprender, mas somente um mórbido amor às novidades". Essas mulheres, fracas de caráter e de intelecto, são uma presa fácil para os vendedores religiosos ambulantes.
Como exemplo de mestres falsos, agora Paulo menciona "Janes e Jambres" que foram (de acordo com a tradição judaica) dois mágicos importantes na corte de Faraó. Os seus nomes não são mencionados nos textos do Velho Testamento, contudo um dos Targuns insere esses nomes em Êxodo 7: 11, onde se lê: "Faráo, porém, mandou vir os sábios e encantadores, e eles, os sábios do Egito, fizeram também o mesmo com as suas ciências ocultas". O que se pode concluir do que Paulo escreve aqui é algo extre¬mamente importante, mas a percepção não é fácil. Ele traça um paralelo histórico entre Janes e Jambres (que se opuseram a Moisés séculos antes) e "estes" (os falsos mestres de seus dias), que também se opunham à verdade. Janes e Jambres eram mágicos; os falsos mestres também eram "perversos" e "impostores" (v.13). É possível que eles tenham também praticado a magia, pois quando os efésios "que haviam praticado artes mágicas" se converteram, "reunindo os seus livros, os queimaram diante de todos" (At 19: 18-19). O que é digno de nota quanto a esta analogia, porém, não é somente que os falsos mestres da Ásia são comparados aos mágicos egípcios, mas sim que Paulo, dessa forma, compara-se a si mesmo com Moisés! E Moisés foi a maior figura do Antigo Testamento. Nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, conforme nos diz o texto bíblico, tanto com respeito ao conhecimento de Deus ("com quem o Senhor houvesse tratado face a face"), como nos sinais e prodígios que ele fez para autenticar a revelação de Deus (Dt 34: 10-11). "Vê", disse o Senhor a Moisés, "que te constituí como deus sobre o Faraó ... Tu falarás tudo o que te ordenar" (Êx 7: 1-2). Assim, por quarenta anos, Moisés falou a palavra de Deus e deu as leis de Deus ao povo.
Mas agora Paulo tem a ousadia de comparar-se a Moisés. As¬sim como Janes e Jambres se opuseram a Moisés, assim também os falsos mestres da Ásia vinham se opondo à verdade. A que verdade? Ora, à verdade ensinada por Paulo e confiada por Paulo a Timóteo (1: 14), a fé apostólica, o sagrado depósito, que Timó¬teo deveria guardar e transmitir. Dessa maneira o apóstolo Paulo, naturalmente e sem qualquer aparente hesitação, coloca-se no ní¬vel de Moisés, na situação de alguém que também ensinava a ver¬dade divina. Moisés ensinou a lei; Paulo pregava o evangelho. Em ambos os casos, no ensino do profeta Moisés e na pregação do apóstolo Paulo, a verdade de Deus é que estava sofrendo oposi¬ção e rejeição por parte dos homens.
Por isso Paulo os rejeita por serem homens "corrompidos na mente", a despeito da pretensão gnõsis (conhecimento) desses homens, e da sua condição de "réprobos" (adokimoi, "provado e achado em falta") quanto a fé. Além disso, Paulo está certo de que tais homens "não irão avante", mas sim "irão de mal a pior" (v.13). Esses falsos ensinos poderiam temporariamente espalhar-se, corroendo "como câncer" (2: 17). Mas tal sucesso seria limitado e passageiro. Como Paulo podia estar tão certo disso? Porque "a sua insensatez será a todos evidente, como também aconteceu (egeneto, no tempo aoristo) com a daqueles" (Janes e Jambres).
Em nossos dias ficamos às vezes angustiados (com razão, é claro), por causa dos falsos mestres, que se opõem à verdade e perturbam a igreja, e especialmente por causa dos métodos astutos e enganosos desses mercadores religiosos clandestinos. Mas não temamos, mesmo que algumas pessoas fracas sejam envolvidas, mesmo que a mentira se torne moda. É que há algo espúrio na heresia que salta aos olhos, e também há uma clara evidência de verdade no que é verdadeiro. Pode ser que o erro se alastre e fique popular por algum tempo, mas "não irão avante". Por fim terá de vir à luz e a verdade será certamente restabelecida. Esta é uma lição muito clara na história da Igreja. Numerosas heresias têm surgido, e muitas deram a impressão de que iam triunfar. Mas hoje não têm qualquer outro valor senão o de peça de museu. Deus preservou a sua verdade na Igreja.
Ao chegarmos aqui no fim do primeiro parágrafo do capítulo 3, devemos ver com clareza o que esses "tempos difíceis" significam, como ocorrem espasmodicamente nos "últimos dias" em que vivemos, e como surgem. É porque na parte do campo de Deus (o mundo) em que ele semeou trigo, aí o diabo semeou joio. Mudando a imagem, o diabo tem a sua "quinta coluna", os seus agentes secretos, realmente, dentro da igreja. Ou, como o Artigo XXVI da Igreja Anglicana expõe: "na igreja visível o mal sempre se mistura com o bem, e por vezes o mal tem autoridade superior na ministração da Palavra e dos sacramentos . . ." Sim, dentro da igreja, no meio da visível sociedade de crentes professos, há homens de caráter e de conduta imorais, de religiosidade puramente exterior, de mentes corruptas e de fé fingida. Amam mais a si mesmos, ao dinheiro e aos prazeres, do que a Deus e a seus semelhantes. Retêm a forma de religião, mas negam o seu poder. Opõem-se à verdade e procuram ganhar os fracos para os seus erros perniciosos. São perversos moral, religiosa e intelectualmente.
Este é um fiel retrato da assim chamada "sociedade permissiva", que cordialmente tolera qualquer desvio dos padrões cristãos de justiça e verdade; este tal espírito já se infiltrou na igreja.
Timóteo, porém, não deve contagiar-se, nem deixar-se levar por esta maré, mas sim resistir corajosamente à onda prevalecente.

Texto Retirado do Livros Tú Porém, John R. W. Stott, Editora:ABU, Preço 21,00 no SITE: http://www.casadabibliaonline.com/sistema/listaprodutos.asp?IDLoja=9297&Det=True&IDProduto=2389954&q=a-biblia-fala-hoje---2-timoteo--tu--porem-

OUÇA O ESPÍRITO, OUÇA O MUNDO - John Stott


INTRODUÇÃO - O ONTEM E O HOJE

As próprias expressões "o cristão contemporâneo" e "cristianismo contemporâneo" (como, por exemplo, em "Instituto de Cristianismo Contemporâneo") chocam muita gente, pois parece ser uma contradição ter¬minológica. Como pode o cristianismo ser considerado "contemporâneo"? Não se trata de uma fé antiga? Seu fundador não viveu e morreu há dois mil anos? O cristi¬anismo não seria parte de um período, uma peça de museu, uma relíquia antiga de um passado remoto, irrelevante para as mulheres e os homens modernos?
Meu propósito neste livro é tentar responder essas ques¬tões e demonstrar que esse negócio de "cristianismo con¬temporâneo" existe mesmo. Não é uma nova versão do cris¬tianismo que nós resolvemos inventar, mas, sim, um cris¬tianismo bíblico, ortodoxo, histórico e original, sensivel¬mente relacionado com o mundo moderno.
O cristianismo é histórico e contemporâneo
Vamos começar reafirmando, sem nenhum pedido de des¬culpas, que o cristianismo é uma religião histórica. É claro que toda religião pode afirmar ser até certo ponto "histórica", pois cada uma surgiu em um contexto his¬tórico específico e remonta ao seu fundador (por exemplo, Buda, Confúcio ou Maomé) e/ou a uma sucessão de líderes que contribuíram para sua formação. O cristianismo, porem, tem uma razão ainda mais forte para afirmar sua historicidade, porque ele não se baseia apenas em uma pessoa histórica, Jesus de Nazaré, mas também em certos eventos históricos que o envolveram, especialmente seu nascimento, morte e ressurreição. Além disso, o que torna histórico o judaísmo são eventos, e não pessoas. O Antigo Testamento apresenta Javé não só como "o Deus de Abraão, Isaque e Jacó", mas também como o Deus da aliança que ele fez com Abraão e renovou com Isaque e Jacó; não apenas como o Deus de Moisés, mas como o Redentor responsável pelo Êxodo, que continuou a renovar a ali¬ança ainda uma vez mais no Monte Sinai. Assim, os cristãos estão para sempre presos, de coração e alma, a estes eventos históricos e decisivos do passado. As Es¬crituras nos exortam constantemente a que os recor¬demos com gratidão. Na verdade, Deus, deliberadamente, tomou os devidos cuidados para que o seu povo se lem¬brasse com regularidade dos seus atos salvíficos. Assim como a Páscoa estava para o Êxodo, como um festival anual de celebração da salvação de Deus, assim a Ceia do Senhor está para a morte expiatória de Cristo, ca¬pacitando-nos a trazê-la regularmente à mente e a rego¬zijar-nos em seus grandes benefícios. E, pois, através da Palavra e do sacramento que o passado se faz presente uma vez mais.
As origens históricas do cristianismo são uma grande bênção. Elas nos provêem um alicerce sólido. Nossa fé não se baseia em lendas, contos de fadas ou mesmo em mitos, mas, sim, em fatos reais. Estes, no entanto, também se constituem em um problema, uma vez que já faz tanto tempo que eles ocorreram. A enorme lacuna entre ontem e hoje, entre o passado e o presente, o histórico e o con-temporâneo, é algo um tanto embaraçoso. A geração mais jovem nos diz que não tem interesse nenhum em história. O máximo que esta produz neles é um longo bocejo, rude e barulhento. O que nos interessa, dizem eles, é o agora, e não o passado. Eles nos fazem lembrar Huckleberry Finn, quando a viúva Douglas lhe conta pela primeira vez a história de Moisés e os juncos:
Eu estava todo suado, de tanto me esforçar para des¬cobrir tudo sobre ele; mas aos poucos ela foi deixando escapar que Moisés já havia morrido há um bom tempo; e daí eu não quis mais saber dele; afinal, não me interessa mesmo ficar me preocupando com gente morta.
Há mais de vinte anos me incomoda uma conversa que tive sobre este assunto com dois irmãos (eu a relato na íntegra no livro Eu Creio em Pregação). Eles eram estu¬dantes universitários e me disseram que haviam repudiado a fé de seus pais, na qual haviam sido criados. Agora um deles era agnóstico e o outro, ateu. Eu lhes perguntei por quê. Porventura eles já não acreditavam mais na verdade do cristianismo? Não, retrucaram, o problema não era esse. Seu dilema não era se o cristianismo era verdadeiro, mas se era relevante. E como poderia sê-lo? O cristianismo, acrescentaram, era uma religião palestina, primitiva. Ha¬via surgido em uma cultura palestina e primitiva. Portan¬to, o que teria ele a lhes oferecer — a eles, que viviam no emocionante mundo moderno das viagens espaciais, das cirurgias de transplante e da engenharia genética? Ele era irrelevante!
Esta sensação de que o cristianismo é uma coisa distante, obsoleta e irrelevante existe em todo lugar. O mundo mudou tão drasticamente desde os dias de Jesus! E con¬tinua mudando com uma rapidez ainda mais assustadora. As pessoas rejeitam o evangelho, não necessariamente por considerá-lo falso, mas porque ele já não faz mais sentido para elas. Será que a igreja conseguirá sobreviver ao desafio da modernidade? Ou passará pelo ignominioso destino do dinossauro e, igualmente incapaz de adaptar-se a um ambiente em mudança, acabará se extinguindo?
Como resposta a esta impressão comum de que o cristia¬nismo está irremediavelmente desatualizado, nós precisa¬mos reafirmar nossa fundamental convicção cristã de que Deus continua a falar através daquilo que ele já falou. Sua Palavra não é um fóssil pré-histórico, a ser exibido numa redoma de vidro, mas, sim, uma mensagem viva para o mundo de hoje. O lugar dela é no mercado e não no museu. Através de sua antiga Palavra Deus se dirige ao mundo moderno, pois, como diz o Dr. J. I. Packer, "a Bíblia é Deus pregando". Mesmo levando-se em conta as peculiaridades históricas da Bíblia e a imensa complexidade do mundo moderno, ainda assim existe uma correspondência funda¬mental entre eles, e a Palavra de Deus continua sendo uma lâmpada para os nossos pés e uma luz para os nossos caminhos.
Ao mesmo tempo, nosso dilema permanece. O evangelho pode ser "modernizado"? Será factível esperar que a igreja aplique a fé histórica ao cenário contemporâneo, a Palavra ao mundo, sem trair a primeira nem alienar o segundo? Será que o cristianismo pode conservar autêntica sua identidade e ao mesmo tempo demonstrar sua relevância, ou é preciso sacrificar um deles em detrimento do outro? Seremos obrigados a escolher entre voltar ao passado e fazer do presente um amuleto, entre recitar velhas verdades que são antiquadas e inventar novas idéias que são espú¬rias? Dentre estes dois, talvez o maior perigo seja o de que a igreja tente reformular a fé de forma a solapar sua integridade, tornando-a irreconhecível diante de seus arautos originais. Eu proponho que agora nos concentre¬mos neste problema; o resto do livro dirige-se, de diferentes maneiras, ao problema complementar da relevância. Em 1937 o acadêmico de Harvard Henry J. Cadbury pu¬blicou o seu livro O Perigo de Modernizar Jesus. Ele admitiu que o propósito — aliás, louvável — dos "modernizadores" de Jesus era "interpretá-lo em termos que pareçam reais, ou seja, termos modernos, adequados à mente moderna". O resultado, porém, sempre foi falsificá-lo, e em especial perder de vista sua característica judaica típica do primeiro século. Tal como os soldados que zom¬bavam de Jesus "rasgaram suas vestes e lhe puseram uma manta escarlate", e então, após escarnecerem dele, "tiraram-lhe o manto de púrpura e lhe puseram suas próprias roupas", assim também nós colocamos em Jesus "nossa própria roupagem" e o revestimos de "nossos próprios pensamentos".
Mesmo assim o desejo de apresentar Jesus de uma forma que apeteça a nossa própria geração é obviamente louvável. Era esta a preocupação de Bonhoeffer na prisão: "O que me preocupa incessantemente", escreveu ele, em 1944, ao seu amigo Eberhard Bethge, "é a questão de... quem é Cristo de fato para nós hoje?" Esta é, sem dúvida alguma, uma pergunta inquietante. Todavia, ao respondê-la, a tendência da igreja tem sido, em cada geração, desenvolver imagens de Cristo que se desviam do retrato pintado pelos autores do Novo Testamento.
Helmut Thielicke foi muito sincero quanto a isso. "Sempre e sempre de novo, a figura de Jesus tem sido terrivelmente amputada", escreveu ele, "a fim de adaptar-se ao gosto de cada geração".
Durante toda a história da igreja Jesus Cristo tem passado por um processo de repetida crucificação. Ele tem sido açoitado, machucado e trancafiado na prisão de in¬contáveis sistemas e filosofias. Tratado como um corpo de pensamento, ele geralmente tem sido rebaixado a sepulturas conceptuais e coberto com lápides, a fim de que não possa ressurgir e causar-nos mais problemas... Mas este é o milagre — que dessa sucessão de sepulturas conceptuais Jesus Cristo sempre e sempre ressuscita de novo!




Texto retirado do livro OUÇA O ESPÍRITO, OUÇA O MUNDO - John R. W. Stott - Editora: ABU. Preço R$ 50,00 no site http://www.livrosnarede.com/telas/produtos/product_view.aspx?id=906

Crer é também pensar - John R. W. Stott



CRISTIANISMO DE MENTE VAZIA

O que Paulo escreveu acerca dos judeus não crentes de seu tempo poderia ser dito, creio, com respeito a alguns crentes de hoje: “Porque lhes dou testemunho de que eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento”. Muitos têm zelo sem conhecimento, entusiasmo sem esclarecimento. Em outras palavras, são inteligentes, mas faltam-lhes orientação.
Dou graças a Deus pelo zelo. Que jamais o conhecimento sem zelo tome o lugar do zelo sem conhecimento! O propósito de Deus inclui os dois: o zelo dirigido pelo conhecimento, e o conhecimento inflamado pelo zelo. É como ouvi certa vez o Dr. John Mackay dizer, quando era presidente do Seminário de Princeton: “A entrega sem reflexão é fanatismo em ação, mas a reflexão sem entrega é a paralisia de toda ação”.
O espírito de anti-intelectualismo é corrente hoje em dia. No mundo moderno multiplicam-se os programatistas, para os quais a primeira pergunta acerca de qualquer idéia não é: “É verdade?” mas sim: “Será que funciona?”. Os Jovens têm a tendência de ser ativistas, dedicados na defesa de uma causa, todavia nem sempre verificam com cuidado se sua causa é um fim digno de sua dedicação, ou se o modo como procedem é o melhor meio para alcançá-lo. Um universitário de Melbourne, Austrália, ao assistir a uma conferência na Suécia, soube que um movimento de protesto estudantil começara em sua própria universidade. Ele retorcia as mãos, desconsolado. “Eu devia estar lá”, desabafou, “para participar.
O protesto é contra o que?” Ele tinha zelo sem conhecimento.
Mordecai Richler , um comentarista canadense, foi muito claro a esse respeito: “O que me faz Ter medo com respeito a esta geração é o quanto ela se apóia na ignorância. Ser o desconhecimento geral continuar a crescer, algum dia alguém se levantará de um povoado por aí dizendo Ter inventado... a roda”.
Este mesmo espectro de anti-intelectualismo surge freqüentemente para perturbar a Igreja cristã. Considera a teologia com desprazer e desconfiança. Vou dar alguns exemplos.
Os católicos quase sempre têm dado uma grande ênfase no ritual e na sua correta conduta. Isso tem sido, pelo menos, uma das características tradicionais do catolicismo, embora muitos católicos contemporâneos (influenciados pelo movimento litúrgico) prefiram o ritual simples, para não dizer o austero. Observe-se que o cerimonial aparente não deve ser desprezado quando se trata de uma expressão clara e decorosa da verdade bíblica. O perigo do ritual é que facilmente se degenera em ritualismo, ou seja, numa mera celebração em que a cerimônia se torna um fim em si mesma, um substituto sem significado ao culto racional.
Por outro lado, há cristãos radicais que concentram suas energias na ação política e social. A preocupação do movimento ecumênico não é mais ecumenismo em si, ou planos de união de igrejas, ou questões de fé e disciplina; muito pelo contrário, preocupa-se com problema de dar alimento aos famintos, casa aos que não tem moradia; com o combate ao racismo, com os direitos dos oprimidos; com a promoção de programas de ajuda aos países em desenvolvimento, e com o apoio aos movimentos revolucionários do terceiro mundo. Embora as questões da violência e do envolvimento cristão na política sejam controvertidos, de uma maneira geral deve-se aceitar que luta pelo bem estar, pela dignidade e pela liberdade de todo homem, é da essência da vida cristã. Entretanto, historicamente falando, essa nova preocupação deve muito de seu ímpeto à difundida frustração de que jamais se alcançará um acordo em matéria de doutrina. O ativismo ecumênico desenvolve-se com reação à tarefa de formulação teológica, a qual não pode ser evitada, se é que as igrejas neste mundo devam ser reformadas e renovadas, para não dizer, unidas.
Grupos de cristãos pentecostais, muitos dos quais fazem da experiência o principal critério da verdade. Pondo de lado a questão da validade do que buscam e declaram, uma das características mais séria, de pelo menos alguns neo-pentecostais, é o seu declarado anti-intelectualismo.
Um dos líderes desse movimento disse recentemente, a propósito dos católicos pentecostais, que no fundo o que importa” não é a doutrina, mas a experiência”. Isso equivale a por nossa experiência subjetiva acima da verdade de Deus revelada. Outros dizem crer que Deus propositadamente dá às pessoas uma expressão inteligente a fim de evitar a passagem por suas mentes orgulhosas, que ficam assim humilhadas. Pois bem. Deus certamente humilha o orgulho dos homens, mas não despreza a mente que ele próprio criou.
Estas três ênfases - a de muitos católicos no ritual, a de radicais na ação social, e a de alguns pentecostais na experiência - são, até certo ponto, sintomas de uma só doença, o anti-intelectualismo.
São válvulas de escape para fugir à responsabilidade, dada por Deus, do uso cristão de nossas mentes.
Num enfoque negativo, eu daria como substituto este trabalho “a miséria e a ameaça do cristianismo de mente vazia”. Mais positivamente, pretendo apresentar resumidamente o lugar da mente na vida cristã. Passo a dar uma visão geral do que pretendo abordar. No segundo capítulo, a título de introdução, apresentarei alguns argumentos - tanto seculares como cristãos - a favor da importância do uso de nossas mentes. No terceiro, constituindo a tese principal, descreverei seis aspectos da vida e responsabilidade cristãs, nos quais a mente tem uma função indispensável. Concluindo , procurarei prevenir contra o extremo oposto, também perigoso, de abandonar um anti-intelectualismo superficial para cair num árido super-intelectualismo. Não estou em defesa de uma vida cristã seca, sem humor, teórica, mas sim de uma viva devoção inflamada pelo fogo da verdade. Anseio por esse equilíbrio bíblico, evitando-se os extremos do fanatismo. Apressar-me-ei em dizer que o remédio para uma visão exagerada do intelecto não é nem depreciá-lo , nem negligenciá-lo, mas mantê-lo no lugar indicado por Deus, cumprindo o papel que ele lhe deu.

Texto retirado do livro Crer é também pensar - John R. W. Stott -

A cruz de Cristo - John Stott



Prefácio

Tenho como um enorme privilégio o ter sido convidado para escrever um livro sobre o maior e mais glorioso de todos os temas, a cruz de Cristo. Dos vários anos de trabalho despendidos neste tarefa, emergi espiritualmente enriquecido, com minhas convicções aclaradas e fortalecidas, e com uma firme resolução de gastar o restante dos meus dias na terra (assim como sei que toda a congregação dos redimidos passará a eternidade no céu) no serviço liberador do Cristo crucificado.
É oportuno que um livro sobre a cruz faça parte das celebrações do Jubileu de Ouro da Inter-Varsity Press, a quem o público leitor muito deve. Pois a cruz é o centro da fé evangélica. Deveras, como argumento neste livro, ela jaz no centro da fé histórica, bíblica, e o fato de que esta verdade não é sempre reconhecida em toda a parte em si mesmo é justificativa suficiente para preservar um testemunho distintamente evangélico. Os cristãos evangélicos crêem que em Cristo e através do Cristo crucificado Deus substituiu a si mesmo por nós e levou os nossos pecados, morrendo em nosso lugar a morte que merecíamos morrer, a fim de que pudéssemos ser restaurados em seu favor e adotados na sua família. O Dr. J. I. Packer com acerto escreveu que esta crença "é o marco distintivo da fraternidade evangélica mundial" (embora 'muitas vezes seja mal compreendida e caricaturada por seus críticos'); ela "nos leva ao próprio coração do evangelho cristão".
É necessário que se esclareça a distinção entre uma compreensão "objetiva" e "subjetiva" da expiação em cada geração. Segundo o Dr. Douglas Johnson, esta descoberta foi um momento decisivo no ministério do Dr. Martyn Lloyd-Jones, que ocupou uma posição singular de liderança evangélica nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Ele confidenciou a vários amigos que "uma mudança fundamental ocorreu em sua perspectiva e pregação no ano de 1929". Ele tinha, é claro, dado ênfase, desde o princípio do seu ministério à necessidade indispensável do novo nascimento. Mas, certa noite, depois de pregar em Bridgend, South Wales, o ministro local desafiou-o dizendo que "parecia que a cruz e a obra de Cristo" ocupavam um pequeno lugar em sua pregação. Imediatamente ele foi a uma livraria que vende livros usados e pediu ao proprietário os dois livros padrão sobre a Expiação. O livreiro. . . apresentou a Expiação de R. W. Dale (1875) e A Morte de Cristo de James Denney (1903). Tendo voltado para casa, ele se entregou totalmente ao estudo, recusando o almoço e o chá, e causando tal ansiedade à esposa que esta telefonou a seu irmão perguntando se devia chamar um médico. Porém, ao emergir da reclusão, Lloyd-Jones dizia ter encontrado "o verdadeiro coração do evangelho e o segredo do significado interior da fé cristã". De sorte que o conteúdo de sua pregação mudou, e com esta mudança o seu impacto. Nas próprias palavras dele, a questão básica não era a pergunta de Anselmo "por que Deus se tornou homem?" mas "por que Cristo morreu?"2
Por causa da importância vital da expiação, e de uma compreensão dela que retire toda falsa informação dos grandes conceitos bíblicos de "substituição", "satisfação" e "propiciação", duas coisas têm-me grandemente surpreendido. A primeira é a tremenda impopularidade em que a doutrina permanece. Alguns teólogos demonstram relutância estranha em aceitá-la, mesmo quando compreendem claramente sua base bíblica. Penso, por exemplo, naquele notável erudito metodista, Vincent Taylor. Sua erudição aprimorada e abrangente encontra-se exemplificada em seus três livros sobre a cruz — Jesus e Seu Sacrifício (1937), A Expiação no Ensino do Novo Testamento (1940) e Perdão e Reconciliação (1946). Ele, ao descrever a morte de Cristo, emprega muitos adjetivos como "vicária", "redentora", "reconciliadora", "expiatória", "sacrificial" e especialmente "representativa". Mas não consegue chamá-la de "substitutiva". Depois de um exame rigoroso do primitivo ensino e crença cristã de Paulo, de Hebreus e de João, escreve ele o seguinte acerca da obra de Cristo: "Nenhuma das passagens que examinamos descreve-a como a de um substituto. . . Em lugar algum encontramos apoio para tais conceitos."3 Não, a obra de Cristo foi um "ministério realizado em nosso favor, mas não em nosso lugar". Contudo, embora Vincent Taylor tenha feito estas espantosas afirmativas, fê-las com grande desconforto. Sua veemência nos deixa despreparados para as concessões que mais tarde ele se sente obrigado a fazer. "Talvez o aspecto mais admirável do ensino do Novo Testamento referente à obra representativa de Cristo", escreve ele, "seja o fato de chegar bem perto dos limites da doutrina substitutiva sem, na realidade, atravessá-los. O paulinismo, em particular, encontra-se a uma distância mínima da substituição". Ele até mesmo confessa a respeito de teólogos do Novo Testamento que "com demasiada freqüência nos contentamos em negar a substituição sem substituí-la", e que é uma noção que "talvez estejamos mais ansiosos a rejeitar do que a examinar". Entretanto, o que procurarei mostrar neste livro é que a doutrina bíblica da expiação é substitutiva do princípio ao fim. O que Vincent Taylor não quis aceitar não foi a doutrina em si, mas as cruezas de pensamento e expressão das quais os advogados da substituição têm, com bastante freqüência, sido culpados.
Minha segunda surpresa, em vista da centralidade da cruz de Cristo, é que nenhum livro sobre este tópico foi escrito por um escritor evangélico para leitores sérios (até dois ou três anos atrás) por quase meio século. É verdade, surgiram vários livros pequenos, e apareceram algumas obras de peso. Gostaria de prestar tributo especial aos notáveis labores neste campo do Dr. Leon Morris, de Melbourne, Austrália. O seu livro Pregação Apostólica da Cruz (1955) deixou-nos todos em dívida, e alegro-me de que ele tenha trazido o conteúdo da obra ao alcance dos leigos em A Expiação (1983). Ele se tomou mestre da vasta literatura de todas as épocas sobre este tema, e seu livro A Cruz no Novo Testamento (1965) permanece, provavelmente, o exame mais completo hoje disponível. Dessa obra cito com caloroso endosso sua afirmativa de que "a cruz domina o Novo Testamento".
Todavia, até à recente publicação do livro de Ronald Wallace intitulado A Morte Expiatória de Cristo (1981) e do de Michael Green A Cruz Vazia de Jesus (1984), não conheço outro livro evangélico para os leitores que tenho em mente, desde a obra de H. E. Guillebaud Por que a Cruz? (1937), que foi um dos primeiros livros editados pela IVF. Foi um livro corajoso, que enfrentou diretamente os críticos da ex-piação substitutiva com três perguntas: (1) "é cristã?"; (isto é, compatível com os ensinos de Jesus e seus apóstolos); (2) "é imoral?" (isto é, compatível ou incompatível com a justiça); e (3) "é incrível?" (isto é, compatível ou incompatível com problemas como o tempo e a transferência da culpa.
Meu interesse é um pouco mais abrangente, pois este não é um livro apenas sobre a expiação, mas também sobre a cruz. Depois dos três capítulos introdutórios que formam a Primeira Parte, chego, na Segunda Parte, ao que chamei de "o coração da cruz", na qual argumento em favor de uma compreensão verdadeiramente bíblica das noções de "satisfação" e "substituição". Na Terceira Parte passo a três grandes realizações da cruz, a saber, salvar os pecadores, revelar a Deus e vencer o mal. A Quarta Parte, porém, trata de áreas que muitas vezes são omitidas nos livros sobre a cruz, isto é, o que significa a comunidade cristã "viver sob a cruz". Procuro mostrar que a cruz a tudo transforma. Ela dá um relacionamento novo de adoração a Deus, uma compreensão nova e equilibrada de nós mesmos, um incentivo novo para nossa missão, um novo amor para com nossos inimigos e uma nova coragem para encarar as perplexidades do sofrimento.
Ao desenvolver o meu tema, conservei em mente o triângulo Escritura, tradição e mundo moderno. Meu primeiro desejo foi ser fiel à Palavra de Deus, permitindo que ela diga o que tem para dizer e não pedindo que ela diga o que eu gostaria que ela dissesse. Não há alternativa à exegese textual cuidadosa. Em segundo lugar, procurei partilhar alguns dos frutos das minhas leituras. Ao procurar compreender a cruz, não podemos ignorar as grandes obras do passado. Desrespeitar a tradição e a teologia histórica é desrespeitar o Espírito Santo que tem ativamente iluminado a igreja em todos os séculos. Então, em terceiro lugar, tentei compreender a Escritura, não apenas à sua própria luz e à luz da tradição, mas também com relação ao mundo contemporâneo. Perguntei o que a cruz de Cristo diz para nós que vivemos no final do século vinte.
Ao ousar escrever (e ler) um livro a respeito da cruz, há, é claro, um grande perigo de presunção. Isto, em parte, advém do fato de que o que realmente aconteceu quando "Deus estava reconciliando consigo mesmo o mundo em Cristo" é um mistério cujas profundezas passaremos a eternidade examinando; e, em parte, porque seria muitíssimo impróprio fingir um frio desprendimento à medida que contemplamos a cruz de Cristo. Quer queiramos, quer não, estamos envolvidos. Nossos pecados o colocou aí. De sorte que, longe de nos elogiar, a cruz mina nossa justiça própria. Só podemos nos aproximar dela com a cabeça curvada e em espírito de contrição. E aí permanecemos até que o Senhor Jesus nos conceda ao coração sua palavra de perdão e aceitação, e nós, presos por seu amor, e transbordantes de ação de graças, saíamos para o mundo a fim de viver as nossas vidas no serviço dele.
Sou grato a Roger Beckwith e a David Turner por terem lido porções do manuscrito e por terem feito úteis comentários. Agradeço a participação de meus quatro assistentes mais recentes — Mark Labberton, Steve Ingraham, Bob Wismer e Steve Andrews. Steve Andrews, como é sua característica, foi meticuloso na leitura do manuscrito, na compilação da bibliografia e dos índices, e na leitura e correção das provas.
Reservo, porém, para o final, meus agradecimentos sinceros a Frances Whitehead, que em 1986 completou trinta anos como minha secretária. Este livro é um dos muitos que ela datilografou. Jamais poderei elogiar em demasia sua eficiência, ajuda, lealdade e entusiasmo constante pela obra do Senhor. Com grande gratidão dedico-lhe este livro.


Texto retirado do livro A cruz de Cristo - John R. W. Stott - Editora: Editora Vida. Preço R$ 19,50 no site http://www.erdos.com.br/detalhe_pro2.php?id=1463

Cristianismo Equilibrado- John R. W. Stott







Unidade, Liberdade e Caridade



Minha preocupação é chamar a atenção para uma das grandes tragédias da cristandade contemporânea, que é especialmente visível no meio de todos nós que somos chamados (e, na verdade, é como nós nos chamamos) cristãos evangélicos. Numa única palavra: essa tragédia chama-se polarização. Serei mais específico sobre o que quero dizer.
O pano de fundo para a tragédia é a nossa substancial concordância no histórico cristianismo bíblico. Nossa união nos fundamentos da fé cristã é coisa grande e gloriosa. Cremos em Deus Pai, infinito e pessoal, santo, criador e sustentador do Universo. Cremos em Jesus Cristo, o único Deus-homem; em seu nascimento virginal , em sua vida encarnada, na autoridade do seu ensino, em sua morte expiatória, na sua ressurreição histórica, e em seu retorno pessoal á terra. Cremos no Espírito Santo por cuja inspiração especial as Escrituras foram escritas e por cuja graça pecadores são hoje justificados e nascidos de novo, transformados na imagem de Cristo, incorporados à Igreja e enviados para servir no mundo. Nestas e em outras grandes doutrinas bíblicas, permanecemos firmes pela graça de Deus, e permanecemos juntos.
Contudo, nós não somos unidos. Nós nos separamos uns dos outros por assuntos pouco importantes. Algumas das questões que nos dividem são teológicas; outras temperamentais. Teologicamente, por exemplo, podemos discordar na relação exata entre soberania divina e responsabilidade humana, na”ordem” e ministério pastoral da igreja (se deve ser episcopal, presbiteriano ou independente) e até onde os crentes podem envolver-se numa “mistura” denominacional sem que se comprometam a si mesmos e a fé que professam; nas relações Igreja-Estado; em quem está qualificado para ser batizado e no volume de água a ser usado; em como interpretar profecia, em quais dons espirituais estão disponíveis hoje e quais são os mais importantes. Estas são algumas das questões nas quais crentes igualmente dedicados e bíblicos discordam entre si. São questões que os reformadores chamam de “adiaforia”, questões “indiferentes”. Desta forma, embora pretendemos continuar defendendo nossa própria convicção das Escrituras, em conformidade com a luz que nos tem sido dada, procuraremos não pressionar dogmaticamente a consciência de outros crentes, mas tratar a cada um com liberdade, em amor e respeito mútuo. Não se pode fazer coisa melhor do que mencionar o famoso epigrama atribuído a um certo Rupert Meldenius e citado por Richard Baxter. Em coisas essenciais, unidade; nas não-essenciais, liberdade; em todas as coisas, caridade.
Estamos, também, separados uns dos outros temporariamente.
Esquecemo-nos , às vezes , que Deus ama a diversidade e tem criado uma rica profusão de tipos humanos, temperamentos e personalidades. Além disso, o nosso temperamento tem mais influência na nossa teologia do que geralmente imaginamos ou admitimos. Embora a nossa compreensão da verdade bíblica dependa da iluminação do Espírito Santo, ela é inevitavelmente colorida pelo tipo de pessoa que somos, pela época na qual vivemos e pela cultura a que pertencemos. Alguns de nós, por disposição e formação, são mais intelectuais que emocionais; outros, mais emocionais que intelectuais. Repetindo, a disposição mental de muitos é conservadora (detestam mudanças e sentem-se ameaçados), enquanto outros são, por natureza, rebeldes à tradição (o que eles detestam é monotonia, considerando mudança como algo próprio de sua natureza). Questões como estas surgem de diferenças temperamentais básicas. Porém, não devemos permitir que o nosso temperamento nos controle. Pelo contrário, devemos deixar que as Escrituras julguem nossas inclinações naturais de temperamento. Caso contrário, acabaremos por perder o nosso equilíbrio cristão.
O título deste ensaio é “Cristianismo Equilibrado”, pois uma das maiores fraquezas que os cristãos (especialmente os evangélicos) manifestam é a tendência para o extremismo ou desequilíbrio. Parece que não existe outro passatempo de que Satanás mais goste do que o de tirar o equilíbrio dos crentes. Embora eu não reivindique qualquer amizade pessoal com ele e nem tampouco qualquer conhecimento íntimo da sua estratégia, suponho ser este um dos seus hobbis favoritos.
Por “falta de equilíbrio”, entendemos o deleite que sentimos em habitar em uma ou outra das regiões extremas da verdade. Se pudéssemos apoiar-nos em ambos os pólos, simultaneamente, exibiríamos um saudável equilíbrio bíblico. Em lugar disto, tendemos a “cair em extremos”. Como
Abraão e Ló, nos separamos uns dos outros. Empurramos outras pessoas para um pólo, enquanto que o pólo oposto é mantido como nossa propriedade.
Teologicamente falando, ninguém na história da igreja britânica nos preveniu melhor deste perigo do que Charles Simeon, professor do King’s College e pároco da igreja Holy Trinity, em Cambridge, no início do século passado. Considere esta conversa imaginária com o apóstolo Paulo, que ele incluiu numa carta para um amigo em 1825. “A verdade não está no meio e nem no extremo, mas nos dois extremos. Aqui estão dois extremos: calvinismo e armenianismo. - Paulo, como te situas em relação a eles? No meio-termo intermediário? - Não. - Nos extremos? - Não. - Como então? - Nos dois extremos: hoje eu sou um calvinista convicto: amanhã, um convicto armeniano. - Bem, bem, Paulo, compreendo a tua esperteza: vai a Aristóteles e aprende o meio termo intermediário!
Simeon continua: - “Mas, meu irmão, eu sou um desventurado. Primeiramente li Aristóteles e gostei muito; mas, desde que comecei a ler Paulo, tenho captado algo de seus estranhos conceitos, oscilações (não vacilações) de um pólo para o outro. Às vezes, sou um poderoso calvinista e, outras, um débil armeniano. Desta forma, se extremos te deleitarem, sou a pessoa certa para ti; lembra-te somente: não é para um extremo que devemos ir, mas para ambos”- um adágio que Charles Smyth descreveu como “tão naturalmente desconcertante para a mente inglesa”(Memoirs of the Life of the Ver. Charles Simeon, editado por Willian Carus 1847, p. 600. Simeon and Church Order por Charles Smyth, 1940, p. 185).

Texto Retirado do Livro Cristianismo Equilibrado - John R. W. Stott. Editora CPAD, preço 13,53 no SITE :
http://www.bibliologia.com.br/lideranca-crista/95706-cristianismo-equilibrado-1191509.html

BATISMO E PLENITUDE DO ESPÍRITO SANTO - John R. W. Stott


Faz agora onze anos desde que o pastor Peter Johnston convidou-me para falar à Conferência de Islington sobre a obra do Espírito Santo. Minha palestra foi depois ampliada e publicada sob o título O Batismo e Plenitude do Espírito Santo.
Desde então, continuou se espalhando o movimento que por alguns é chamado de "neopentecostal", mas pela maioria de "carismático". Agora ele é um fenômeno de alcance mundial, e tem como líderes pessoas muito respeitadas. Não é possível analisar o cenário eclesiástico contemporâneo sem levá-lo era conta.
Não pare haver dúvidas de que Deus usou este movimento para trazer bênçãos a um grande número de pessoas. Muitos cristãos dão testemunho de terem experimentado amor e liberdade novos, uma soltura interior das amarras da inibição, uma alegria trasbordante e paz na fé, um sentimento mais acentuado de que Deus é real, uma comunhão cristã mais calorosa do que tinham conhecido antes, e um zelo renovado na evangelização. Este movimento é um desafio saudável para todos os cristãos que levam uma vida cristã medíocre e para todas as igrejas que têm uma vida enfadonha.
Ao mesmo tempo foram feitas avaliações cuidadosas, de diversos pontos de vista. Muitas vezes os líderes carismáticos são os primeiros a admitir que tem havido algumas causas de inquietação e que a tarefa do debate teológico sério apenas começou. Uma das dificuldades para uma discussão contínua é que o movimento carismático não é uma igreja ou associação organizada, com fórmulas doutrinárias oficiais. As igrejas pentecostais, que surgiram a partir do começo do século, têm confissões de fé publicadas, às quais seus pastores precisam se ater. Porém o movimento carismático anda é bastante independente e seus líderes e membros não estão sempre totalmente de acordo entre si em questões teológicas. Parece que alguns adotam uma posição totalmente "pentecostal", praticamente sem diferença se comparada à das igrejas pentecostais. Outros dizem ter tido o que eles gostam de chamar de experiência "pentecostal", que, no entanto, não formulam em termos da "teologia pentecostal" clássica. Ainda outros estão passando por um estado de mudança em sua própria maneira de ver as coisas, ainda procurando a forma más adequada de expressar teologicamente suas experiências.
Uma tal flexibilidade é muito bem-vinda, em parte porque ela é um sinal de abertura, e em parte porque deve impedir que alguém polarize a situação entre "carismáticos" e "não-carismáticos", já que parece que um número cada vez maior de pessoas tem um pé era cada um dos lados. Porém, mesmo bem-vinda, esta fluidez também torna a tarefa da avaliação mais difícil, pois nem sempre está claro a quem ou sobre quem estamos falando. Desde já quero desculpar-me se algum cristão que se intitula "carismático", ao ler estas páginas, não se reconhece no que escrevi! Eu só posso garantir que tentei ser objetivo e honesto, coletei informações de pessoas e literatura atual, e de forma alguma quis ridicularizar alguém.
Agora deixe-me explicar o motivo pelo qual eu rescrevi o livreto anteriormente publicado. Quais são as razões de uma segunda edição?
Em primeiro lugar, ao reler o que escrevi há onze anos, algumas partes pareceram-me obscuras e outras fracas, e o todo deu a impressão de estar incompleto. Portanto, tentei esclarecer o que estava obscuro e reforçar o que estava fraco. Especificamente, dividi o material original em dois capítulos, agora intitulados "A Promessa do Espírito" e "A Plenitude do Espírito". Expandi o material destes capítulos dando ênfase em convicções comuns e indicando em quais áreas as diferenças continuam. Depois, acrescentei material novo era dois capítulos intitulados "O Fruto do Espírito" e "Os Dons do Espírito".
A segunda razão é mais pessoal. Durante os últimos anos, recebi regularmente cartas de pessoas que dizem ter ouvido que mudei de ponto de vista, depois que escrevi O Batismo e Plenitude do Espírito Santo. Não é verdade. A edição revista me dá a oportunidade de corrigir este falso rumor.
Em terceiro lugar, seja qual for nossa posição era relação a este assunto, todos precisamos permanecer em comunhão frutífera e em diálogo com os outros. Ninguém acha isto fácil. É preciso ter maturidade considerável para estabelecer e manter um relacionamento pessoal cordial com pessoas que não vêem as coisas como nós. Em uma conferência recente, achei oportuno confessar minha imaturidade, tanto por ter sido negativo demais em relação ao movimento carismático, quanto por ter relutado em ir até seus líderes e dialogar com eles. Em seguida, mencionei três áreas que me pareciam ser uma base de comum acordo para continuar o diálogo. Pode ser proveitoso o fato de registrá-las aqui.
A primeira é a objetividade da verdade. Vivemos em tempos muito subjetivos, em que o existencialismo faz uma distinção radical entre vida "autêntica" e "inautêntica", usando critérios completamente subjetivos para determinar o que é "autêntico", ou seja, o que a mim parece autêntico neste momento. Todavia cristãos, especialmente cristãos evangélicos, estão convictos de que Deus falou histórica e objetivamente, que sua Palavra culminou em Cristo e no testemunho apostólico a respeito dEle, e que a Escritura é exatamente a Palavra de Deus escrita para nosso aprendizado. Portanto, todas as nossas tradições, todas as nossas opiniões e todas as nossas experiências precisam ser submetidas ao exame independente e objetivo da verdade bíblica.
A segunda é a centralidade de Cristo. Todos concordamos também nisto, pelo menos em teoria. Nossos olhos foram abertos para ver a verdade como ela é em Jesus, e nossos lábios para confessar que ele é o Senhor. Não ternos dificuldades para endossar as grandes afirmações do apóstolo Pauto em sua carta aos Colossenses, de que Jesus Cristo é o Cabeça do universo e da igreja; de que o propósito de Deus é que ele possa "em todas as coisas ter a primazia" (1:18); de que "nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade (2.9); e de que nele recebemos "a vida completa" (2:10, BLH).
Entretanto, não é suficiente concordar somente com os lábios com estas afirmações sobre a supremacia e suficiência de Cristo. Todos precisamos ir adiante e estabelecer as implicações disto. Alguns cristãos dão a impressão de basear-se numa doutrina de "Jesus e", tal como: "Você veio a Jesus, o que é muito bom; porém, agora, você precisa de algo mais para completar este passo". Outros dão tanta ênfase à suficiência de Cristo que parecem ter um conceito estático da vida cristã, que não dá espaço nem para um crescimento em maturidade, nem para experiências mais profundas e completas com Cristo.
A terceira área era que devermos concordar é a diversidade da vida. Isto é, o Deus vivo da natureza e da Escritura é um Deus de diversidade rica e colorida. Ele fez diferente cada ser humano, cada folha de grama, cada floco de neve. Por esta razão, eu confesso que, quanto mais eu vivo, mais hostil me torno a qualquer estereótipo. Todavia, parece que alguns de nós estão ansiosos em forçar todos a dançarem conforme a sua música, e em enquadrar os outros em seus padrões. Será que isto não é sempre reprovável? Minha convicção, que tentarei expor nas próximas páginas deste livro, é de que há uma variedade grande de experiências espirituais e uma variedade também grande de dons espirituais. Se renunciarmos ao desejo de aprisionar os outros em camisas-de-força, encontraremos uma nova liberdade e uma nova comunhão no Deus da diversidade abundante.
Finalizando, quero deixar bem claro que meu propósito com este livro não é fazer polêmica, porque sou um homem de paz, e não de guerra. Se às vezes fui negativo, isto ocorreu somente para esclarecer a verdade positiva correspondente. Também levantei algumas perguntas que, segundo me parecem, precisam ser feitas e respondidas. Mas não tenho a intenção de ferir ou confundir ninguém. Minha preocupação é tentar expor certas passagens importantes da Bíblia. E meu objetivo nisto é que todos possamos compreender melhor a grandiosidade da nossa herança em Cristo, para que nos apossemos dela de maneira mais completa, bem como a extensão da nossa responsabilidade em manifestar todo o fruto do Espírito em nossa vida, e em pôr em prática os dons do Espírito que ele, em sua soberania graciosa, nos concedeu.
Abril de 1975
J.R.W.S.





Texto retirado do livro BATISMO E PLENITUDE DO ESPÍRITO SANTO - John R. W. Stott - Editora: Vida Nova . Preço R$ 19,90 no site http://www.gospeltop.com.br/livros/aconselhamento/livro-batismo-e-plenitude-do-espirito-santo.html

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