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terça-feira, 27 de setembro de 2011

"E a Pedro" Watchman Nee




"E A PEDRO"










Leitura Bíblica: Mc 16:7


O Evangelho de Marcos registra que, após a ressurreição do Senhor, um anjo disse a algumas mulheres para contar aos discípulos do Senhor e a Pedro o que acontecera. Oh! "E a Pedro". Isso enche os nossos olhos de lágrimas. Por que ele não disse: "Dizei a Seus discípulos e a João?" (João era o amado do Senhor). Por que não disse: "Dizei a Seus discípulos e a Tomé?" (Tomé duvidou da ressurreição do Senhor). O anjo não mencionou os melhores discípulos ou os mais necessitados, mas especificamente Pedro. Por que isso? Havia algo em Pedro que era tão diferente dos demais?


Pedro cometera um grande pecado três dias antes desse evento — tão grande pecado que impede o Senhor de confessá-lo diante dos anjos de Deus (Lc 12:9). Pedro não confessou o Senhor diante dos homens, nem mesmo diante de uma humilde criada. Mas o Senhor queria que alguns fossem dizer a Seus discípulos e a Pedro sobre a Sua ressurreição. "E a Pedro" — quão profundo é o significado dessas palavras!


Se alguns irmãos e irmãs tivessem tais experiências como as de Pedro, pensariam: "Oh! Eu sou Pedro. Eu já caí. O que cometi não é um pecado comum. Receio que nunca mais poderei me aproximar do Senhor. Temo que o Senhor já me abandonou e, de agora em diante, toda vez que Ele tiver alguma tarefa importante nunca mais encarregará a mim de fazê-la. Nunca mais serei capaz de ter experiências especiais como aquela que tive com o Senhor no monte da transfiguração. Não mais poderei ser o companheiro do Senhor no jardim do Getsêmani. Quando confessei o desejo de morrer pelo Senhor, Ele disse: "Antes que duas vezes cante o galo, tu Me negarás três vezes". Naquele instante, pensei que o Senhor tivesse me entendido mal. Quando Ele foi preso, cortei a orelha de um homem com a espada, e pensei que podia amar o Senhor corajosamente. Quem teria imaginado que até mesmo eu pudesse tropeçar! Não tropecei perante um grande sumo sacerdote, alguém com grande autoridade; nem mesmo caí perante Pilatos que tinha muito poder. Mas caí justamente diante de uma pergunta feita por uma criada! Neguei o Senhor uma vez, em seguida, mais uma vez e finalmente até comecei a praguejar e a jurar negando o Senhor".


"Uma vez confessei que Ele era o Cristo e que Ele era o Filho de Deus. Eu Lhe disse: ‘Tu tens a vida eterna. A quem mais iremos nós?’ Entretanto, justamente quando vi o Senhor prestes a ser crucificado, caí. Cometi o maior pecado: negá-Lo. Embora eu tenha chorado e me arrependido, não sei como o Senhor se sentiu a meu respeito. Naquele dia, quando eu O neguei, teria sido melhor se Ele não o soubesse. No entanto, exatamente quando eu O neguei, Ele se virou e olhou para mim; isso indicava que Ele já o sabia! Que farei agora? Nunca mais me atreverei a ir até Ele. Embora Ele me ame, não ouso me aproximar Dele, pois há um pecado que nos separa. Provavelmente, nunca mais poderei me aproximar Dele".


"Mas o Senhor ressuscitou. Algumas mulheres trouxeram a mensagem e Ele clara e especificamente mencionou que dissessem-na a mim. Oh! mesmo tendo negado o Senhor por três vezes, Ele não me abandonou! Ele não me odiou nem ficou furioso comigo. O que o Seu coração deseja é a minha pessoa. Ele não mencionou ninguém mais em particular; somente a mim em especial, como se eu fosse o único em Sua lembrança. 'E a Pedro! E a Pedro!' — essa é na verdade a música mais aprazível no mundo, a mais maravilhosa e boa nova! Se o Senhor tivesse pedido às mulheres que dissessem apenas aos discípulos, teria pensado que alguém como eu não era digno de ser Seu discípulo, e teria deixado de sê-lo. Não teria ousadia de ir vê-Lo. Mas o Senhor disse: 'E a Pedro'. Isso mostrou-me que Ele ainda me queria. Apesar de não ter forças para ir vê-Lo, 'E a Pedro' encorajou-me a ir. A mensagem trazida pelas mulheres era verdadeira. O Senhor fez o anjo mencionar especificamente o meu nome. Ele não me havia abandonado. Ainda posso achegar-me a Ele. Levantar-me-ei e irei vê-Lo!"


Oh! este era um Pedro que caíra, um Pedro que pecara e um Pedro que negara o Senhor; no entanto, o Senhor ainda o men­cionou especificamente. Este é o evangelho! Irmão, você sabia que uma vez que o Senhor o salvou, Ele o salvará até o fim? Ainda que você esteja desencorajado, o Senhor jamais estará desencorajado. Apesar de você pecar e se sentir desconcertado de voltar a Ele, do lado Dele, no entanto, não há qualquer razão para não voltar.


Por que você insiste em lembrar da sua falha, sendo que o Senhor já não se importa com ela? O Senhor tirará o véu da sua face hoje, então você não terá mais medo Dele, nem hesitará em se aproximar Dele.


É provável que Pedro ainda se lembrasse de que certa vez disse ao Senhor: "Ainda que todos venham a tropeçar por Tua causa, eu jamais tropeçarei" (Mt 26:33). Pode ser que também se lembrasse que, junto ao lago de Genesaré, quando vira a glória do Senhor, dissera: "retira-te de mim, Senhor, porque sou homem pecador" (Lc 5:8). Agora, porém, conheceu a sua condição e como ousaria ver o Senhor? Era possível que continuasse a se lembrar do pedido do Senhor: "Assim, não fostes capazes de vigiar Comigo nem por uma hora?". Em seus ouvidos possivelmente ainda permanecia o mandamento do Senhor: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação" (Mt 26:40-41). De qualquer modo, a sua condição estava longe da exigência do Senhor. Como ele ousaria ver o Senhor hoje? Todavia, ele foi ver o Senhor. Por causa da palavra "e a Pedro" ele teve ousadia de ir vê-Lo. Irmão, se você conhecesse a intenção da palavra "e a Pedro", poderia ainda permanecer longe Dele e não se voltar a Ele? Se você conhecesse o significado profundo da palavra "e a Pedro", não haveria outra coisa a fazer, senão aproximar-se do Senhor.


Qual livro entre os quatro Evangelhos registrou o evento dessa forma? Somente o Evangelho de Marcos. Marcos era um jovem; ele seguiu a Pedro e aprendeu muito dele. Podemos dizer que o Evangelho de Marcos foi ditado por Pedro e escrito por Marcos. A sentença "dizei aos Seus discípulos e a Pedro", foi especialmente registrada por Pedro. Esta palavra pode não ser tão importante para outros, mas era extremamente importante no coração de Pedro. Quando o Espírito Santo escreveu a Bíblia, Ele especialmente mostrou-nos que as poucas palavras que pareciam ser insignificantes para Mateus, Lucas e João, eram inesquecíveis para Pedro, quem narrou o Evangelho de Marcos. "E a Pedro" tinha um significado especial para ele. Em todo tempo, a recordação dessas palavras era doce. A palavra da graça é especialmente memorável para aquele que a recebeu.


Irmãos e irmãs, quando nos lembramos do Senhor no partir do pão, há alguém cujo coração ainda está com medo de Deus? Ou há algum pecado que separa você de Deus? Já choramos amargamente, arrependemo-nos e confessamos aquilo que fizemos que não era digno do Senhor. Agora, ousamos dizer ao Senhor: "Senhor, eu me achego a Ti?" Apenas considere: Por amar você, Ele voluntariamente foi à cruz; agora Ele deixaria de amá-lo apenas porque você falhou, tropeçou e caiu? Teria o Seu amor, com que amou você na cruz, então diminuído? Hoje é fácil para você não amá-Lo, não se aproximar Dele nem voltar a Ele, mas é impossível para Ele não amar você, esquecê-lo ou abandoná-lo.


Três dias após a morte do Senhor, Pedro estava calado porque tropeçara, mas o Senhor não o esqueceu. Assim, se você não tiver forças para ir diante do Senhor, tenha apenas o desejo de crer em Sua palavra. Ele poderá dar-lhe forças para ir até Ele. Se você tropeçou, Ele poderá levantá-lo. Embora pareça que nunca mais poderá se aproximar do Senhor novamente, se você puder, na fé, se lembrar da palavra "e a Pedro", você será capaz de se aproximar Dele. Quando queremos nos aproximar do Senhor, ainda que pareça haver uma grande distância, e sintamos que não temos forças para ir até Ele, devemos nos lembrar da palavra "e a Pedro". Era de Pedro, que tropeçara, que o Senhor se lembrou mais. Apesar de Pedro não ousar vir até o Senhor, o coração do Senhor o atraiu, levando-o a não ousar esconder-se do Senhor. Não entendamos mal o coração do Senhor hoje. Você pode ouvir uma voz dizendo: "e a Pedro". Saiba que o Senhor não o abandonou. O Senhor não abandonou a Pedro, tampouco o Senhor abandonou você: "e a Pedro" também significa "e a você" - você que falhou como Pedro! Que todos nós vejamos o coração do Senhor para conosco. Se vir o coração do Senhor, você nada fará senão correr para Ele!














Compilado do livro Doze Cestos Cheios (volume 1) de Watchman Nee, publicado pela Editora Arvore da Vida.

sábado, 20 de agosto de 2011

Um Chamado aos Apóstatas - John Wesley


Um Chamado aos Apóstatas
                                                                                                                     John Wesley



'O Senhor irá se ausentar para sempre? E Ele não será mais solicitado? Rejeitará o Senhor para sempre e não tornará a ser favorável? Cessou para sempre a sua benignidade? Acabou-se já a promessa de geração em geração?' (Salmos 77:7)

1. A presunção é uma das grandes armadilhas do diabo, em que muitos dos filhos dos homens são levados. Eles, então, se prevalecem sobre a misericórdia de Deus, de maneira a esquecer totalmente de Sua justiça. Embora Ele tenha declarado expressamente, 'Sem santidade nenhum homem verá ao Senhor', ainda assim, eles alimentam a esperança de que, no fim, Deus irá sobrepujar Sua palavra. Eles imaginam que eles podem viver e morrer em seus pecados, e, não obstante, 'escaparem da condenação do inferno'.

2. Mas, embora existam muitos que são destruídos pela presunção, existem muitos mais que perecem pelo desespero. Eu quero dizer, pela falta de esperança; por pensar que é impossível que eles possam escapar da destruição. Muitas vezes, tendo lutado contra seus inimigos espirituais, e sempre dominados, eles entregam suas armas, e não lutam mais, uma vez que não têm mais esperança da vitória. Sabendo, através de experiência melancólica, que eles não têm poder em si mesmos, para auxiliar a si próprios, e tendo nenhuma expectativa de que Deus irá ajudá-los, colocam-se debaixo de seu fardo. Não se esforçam mais; já que eles supõem que isto seja impossível que alcancem.

3. Neste caso, como em milhares de outros, 'o coração conhece sua própria amargura, mas um estranho não se intromete com sua aflição'. Não é fácil para estes, conhecerem o que eles nunca sentiram. Porque, 'quem conhece as coisas de um homem, a não ser o espírito do homem que está nele?'. Quem conhece, a não ser, através de sua própria experiência, o que este tipo de espírito errante quer dizer? Em conseqüência, existem poucos que sabem como compreender os sentimentos daqueles que estão debaixo desta desagradável tentação. Existem poucos que têm devidamente considerado o caso; poucos que não estão iludidos pelas aparências. Eles vêem os homens seguirem em direção ao pecado, e tomam por certo, que eles estão sendo meramente presunçosos: Enquanto que, na realidade, ele vem de um princípio completamente contrário; -- eles estão em desespero apenas. Tanto eles não têm esperança, afinal, -- e, enquanto este é o caso, eles não se esforçam, decerto, -- quanto eles têm alguns intervalos de esperança, e, enquanto ele dura, eles 'se esforçam pelo domínio'. No entanto, esta esperança logo acaba: Eles, então, cessam de se esforçarem, e 'são feitos cativos de satanás e de vontade dele'.

4. Este é freqüentemente o caso, com respeito àqueles que começam a seguir bem, mas logo se cansam na sua estrada celeste; em particular, com aqueles que, uma vez, 'viram a glória de Deus na face de Jesus Cristo', mas, que, mais tarde, afligiram Seu Espírito Santo, e naufragaram na fé. De fato, muitos destes, correram em direção ao pecado, como um cavalo dentro da batalha. Eles pecam com pulso forte, como a suprimir completamente o Espírito Santo de Deus; de modo que Ele os entrega às luxúrias de seus próprios corações, e permite que eles sigam a própria imaginação deles. E estes, que estão assim desesperados, podem ser completamente estúpidos, sem tanto terem medo, quanto tristeza, ou prudência; extremamente sossegados e despreocupados com respeito a Deus, ou céu, ou inferno; para os quais, o deus deste mundo não contribui com pouco, cegando e endurecendo seus corações. Mas ainda, até mesmo esses não seriam tão negligentes, não fosse pela desesperança. A grande razão porque eles não têm tristeza ou cuidado, é porque eles não têm esperança. Eles verdadeiramente acreditam que eles têm desafiado a Deus, de tal forma, que 'Ele não mais poderá ser solicitado'.

5. E, ainda assim, nós não devemos desistir completamente, mesmo destes. Nós temos conhecido alguns, mesmos daqueles despreocupados, a quem Deus tem visitado novamente, e os tem restaurado para seu primeiro amor. Mas nós podemos ter muito mais esperança por aqueles apóstatas que não são negligentes, que ainda estão apreensivos; -- aqueles que ficariam satisfeitos, se pudessem escapar da armadilha do diabo, mas pensam que isto é impossível. Eles estão completamente convencidos de que eles não podem salvar a si mesmos, e acreditam que Deus não irá salvá-los. Eles acreditam que eles têm 'encarcerado sua bondade no desprazer', irrevogavelmente. Eles se fortificam ao acreditar nisto, pela abundância de motivos; e a menos que essas razões sejam claramente removidas, eles não podem esperar por qualquer livramento.

E com o objetivo de aliviar essas almas desesperançadas e desamparadas, que eu proponho, com a assistência de Deus: --

I. Inquirir qual os principais motivos, destes que induzem tantos apóstatas a lançarem fora a esperança; e suporem que Deus se esqueceu de ser gracioso. E,

II. Dar uma resposta clara e completa a cada um deles.

I

Em Primeiro Lugar, eu vou inquirir quais as principais razões, que induzem tantos apóstatas a pensarem que Deus se esqueceu de ser gracioso. Eu não quero dizer todas as razões; porque inumeráveis são as que tanto o próprio coração pecaminoso deles, quanto a velha serpente irão sugerir; mas as principais delas; -- aquelas que são mais plausíveis e, portanto, mais comuns.

1. O primeiro argumento, que induz muitos apóstatas a acreditarem que 'o Senhor não mais poderá ser solicitado', é esboçado da mesma razão da coisa: 'Se', dizem eles, ' um homem se rebela contra um príncipe terreno, muitas vezes, ele morre, por causa da primeira ofensa; ele paga com sua vida, pela primeira transgressão'. Ainda assim, se o crime for possivelmente extenuado, através de alguma circunstância favorável, ou, se uma forte intercessão for feita por ele, sua vida pode ser devolvida. Mas, se, depois de um perdão completo e livre, ele for culpado de se rebelar, uma segunda vez, quem se atreveria a interceder por ele? Ele não deve esperar por misericórdia além. Agora, se alguém se rebela contra um rei terreno, depois de ter sido perdoado livremente, uma vez, ele não pode, com alguma plausibilidade da razão, esperar ser perdoado, uma segunda vez; assim sendo, qual deve ser o caso daquele que, depois de ter sido perdoado livremente pela rebelião contra o grande Rei no céu e terra, rebela-se contra Ele novamente? O que pode ser esperado, a não ser aquela 'vingança que virá sobre ele ao extremo?'.

2. Este argumento, esboçado da razão, eles reforçam, através de diversas passagens das Escrituras. Um dos mais fortes destes, é aquele que ocorre na Primeira Epístola de João: (I João 5:16) 'Se alguém vir pecar seu irmão, pecado que não é para morte, orará, e Deus dará a vida àqueles que não pecarem para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que ore'. Por esta razão, eles argumentam: 'Certamente, eu não dizer que ele deva suplicar por ela, é equivalente a, eu dizer que ele não deve suplicar por ela'. Assim, o Apóstolo supõe que aquele que cometeu este pecado, esteja, de fato, em um estado desesperado! Tão desesperado, que nós não podemos, nem mesmo orar por seu perdão; nós não podemos pedir pela vida dele. E o que podemos razoavelmente supor ser um pecado para a morte, do que uma rebelião obstinada em busca de um perdão completo e livre?

'Considere, Em Segundo Lugar', dizem eles, 'aquelas passagens terríveis na Epistola de Hebreus'; uma das quais ocorrem, no sexto capítulo, e a outra no décimo. Para começar com o último:

(Hebreus 10:26-31) 'Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar os adversários. Quebrantando alguém a lei de Moisés, morre sem misericórdia, só pela palavra de duas ou três testemunhas. De quanto castigo maior, cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça? Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo. Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo!'.

Agora, aqui não está expressamente declarado pelo Espírito Santo, que nosso caso é desesperado? Não está declarado que, 'se, depois de nós termos recebido o conhecimento da verdade', depois de o termos experimentalmente conhecido, 'nós pecamos terrivelmente', -- o que, sem dúvida, o fizemos, e isto, repetidas vezes, -- 'resta outro sacrifício, para o pecado, do que buscar pelo julgamento e indignação flamejante, que deverá devorar os adversários?'.

"E não é esta passagem, no sexto capítulo, exatamente paralela com isto? (Hebreus 6:4) 'Porque é impossível que os que já foram iluminados, uma vez, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, -- se eles se tornaram apóstatas'; (literalmente, e recaíram) 'sejam, outra vez, renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério'".

"É verdade, que alguns são da opinião de que é improvável que essas palavras sejam tomadas literalmente, como denotando absoluta impossibilidade; mas, tão somente, uma dificuldade muito grande. No entanto, não parece que temos alguma razão suficiente para descartarmos o sentido literal; já que ele nem sugere algum absurdo, nem contradiz quaisquer outras Escrituras. Estas, então", dizem eles, "eliminam toda esperança; vendo que nós, indubitavelmente, 'testamos do dom celestial, e fomos feitos parceiros do Espírito Santo?'. Como é possível 'nos renovarmos novamente para o arrependimento'; para uma mudança inteira no coração e vida? Vendo que nós temos crucificado para nós mesmos, 'o filho de Deus novamente, e o exposto à vergonha declarada?'".

"Uma passagem ainda mais terrível do que esta, se possível, é aquela no décimo-segundo capítulo de Mateus: (Mateus 12:31-32) 'Portanto, eu vos digo: Todo o pecado, e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada aos homens. E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro'". Exatamente paralelo a essas, são aquelas palavras de nosso Senhor, que são recitadas, através de Marcos: (Marcos 3:28-29) 'Na verdade vos digo que todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens, e toda a sorte de blasfêmias, com que blasfemarem; qualquer, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo, nunca obterá perdão, mas será réu do eterno juízo'

O julgamento de alguns, é que todas essas passagens apontam para um e o mesmo pecado; que não apenas as palavras de nosso Senhor, mas aquelas de João, concernentes ao 'pecado para a morte', e aquelas de Paulo, concernentes 'crucificarem, para si mesmos, o filho de Deus novamente', esmagando com os pés, o Filho de Deus, e o fazendo, a despeito do Espírito da graça, todas se referem à blasfêmia contra o Espírito Santo'; o único pecado que nunca deverá ser perdoado. Quer pratiquem ou não, deve ser permitido que esta blasfêmia seja absolutamente imperdoável; e que, conseqüentemente, por causa desses que têm sido culpados disto, Deus 'não será mais solicitado'.

3. Para confirmar esses argumentos, esboçados da razão e Escrituras, eles apelam de fato. Eles perguntam: "Não é verdade que esses que decaíram da graça justificadora, que 'naufragaram da fé', aquela fé, da qual, vem a salvação presente, perecem sem a misericórdia? Quão menos, pode escapar quem decaiu da graça santificadora! Os que naufragaram daquela fé, por meio da qual eles são limpos de toda poluição da carne e espírito! Alguma vez, existiu um exemplo de um ou outro desses sendo renovados novamente para o arrependimento? Se houve alguma instância desta, alguém poderia estar inclinado a acreditar que aquele pensamento de nosso poeta não seja extravagante:-- 'Até mesmo Judas lutou para abrandar seu desespero. A esperança quase floresceu nas sombras do inferno'".

II

Estes são os principais argumentos esboçados da razão, das Escrituras, e dos fatos, por meio dos quais, os apóstatas estão acostumados a justificarem a si mesmos, ao jogarem fora a esperança; em suportem que Deus tem 'encarcerado sua bondade no desprazer'. Eu os tenho proposto, em toda sua intensidade, para que possamos formar um julgamento melhor, concernente a eles, e experimentar se cada um deles não pode receber uma resposta clara, completa e satisfatória.

1. Eu começo com aquele argumento que é tomado da natureza da coisa: 'Se um homem que se rebela contra um príncipe terreno, pode possivelmente ser perdoado, na primeira vez; existe esperança de que ele obtenha um segundo perdão, se depois de um perdão completo e livre, ele se rebelar novamente? Não. Ele deve esperar morrer, sem misericórdia. Agora, se ele que se rebela novamente contra um rei terreno, não pode buscar por um segundo perdão, como poderá buscar pela misericórdia aquele que se rebela, pela segunda vez, contra o grande Rei dos céus e terra?'.

2. Eu respondo: Este argumento, esboçado da analogia entre as coisas terrenas e celestes, é plausível, mas não é sólido; e por esta razão clara: A analogia não tem lugar aqui: Não existe analogia ou proporção entre a misericórdia de alguns filhos dos homens e aquela do mais sublime Deus. 'No que vocês irão se comparar a mim, diz o Senhor?'. Ao que, seja céu quanto na terra? Quem, ou 'o que ele é, em meio aos deuses, que deva ser comparado ao Senhor?'. 'Eu digo que vocês são deuses', diz o salmista, falando para os magistrados supremos. Tal é a dignidade e poder de vocês, comparados àqueles dos homens comuns. Mas o que eles são para o Deus do céu? São como uma bolha sobre a onda. O que é o poder deles, em comparação ao Seu poder? O que é a misericórdia deles, comparada com Sua misericórdia? Por isto, aquela palavra confortável, 'Eu sou Deus, e não homem; portanto, a casa de Israel não será destruída'. Porque Ele é Deus, e não homem; 'por conseguinte, suas compaixões não falham'. Ninguém pode, então, inferir que, porque um rei terreno não irá perdoar alguém que se rebele contra ele, uma segunda vez, portanto, o Rei do céu não o fará. Sim, Ele o fará; não apenas sete vezes apenas, ou até setenta vezes sete. Não; fossem suas rebeliões multiplicadas como as estrelas do céu; fossem elas mais em número do que os cabelos de sua cabeça; ainda assim, 'volte para o Senhor, e Ele terá misericórdia de você; e para nosso Deus, e Ele irá perdoá-lo abundantemente'.

3. "Mas João não nos tira esta esperança, por meio do que ele disse do 'pecado para a morte? Dizer que 'eu não digo que ele deva suplicar por ela', não é equivalente com, 'eu digo que ele não deve suplicar por ela?'. E isto não implica que Deus não determinou ouvir aquela súplica? Que ele não dará vida a tal pecador, não, nem através da oração de um homem justo?'".

4. Eu respondo: 'Eu não digo que você deva suplicar por ela', certamente significa que ele não deve suplicar por ela. E, sem dúvida, implica que Deus não dará vida para aqueles que cometeram este pecado; que a sentença deles está feita, e que Deus determinou que não será revogada. Ela não poderá ser alterada, nem mesmo, através daquela 'oração fervorosa efetiva', que, em outros casos, 'teria muito valor'.

5. Mas eu pergunto, Primeiro, qual é o pecado que é para a morte? E, em Segundo Lugar, qual é a morte que aqui está anexada a ele?

E, Primeiro, qual é o pecado que é para a morte? Há muitos anos, eu perguntei a algumas das pessoas mais experientes nas coisas de Deus, do que qualquer outra que eu tenha visto, o que vocês entendem por 'pecado para a morte', que é mencionado na Primeira Epístola de João? E eles responderam: "Se alguém está enfermo, em meio de nós, ele é levado para os presbíteros da Igreja; e eles oram por ele, e a oração da fé salva o doente; e o Senhor o restaura. E, se ele cometeu pecados, que Deus está punindo, por meio daquela enfermidade, eles estão perdoados dele. Mas, algumas vezes, nenhum de nós pode orar para que Deus possa reerguê-lo. E nós somos constrangidos a dizer a ele: 'Nós estamos temerosos que você tenha cometido um pecado para a morte'; um pecado que Deus determinou punir com a morte; nós não podemos suplicar por sua reparação. Nós ainda não conhecemos qualquer instância de tal pessoa restaurada".

Eu não vejo absurdo, afinal, nesta interpretação da palavra. Parece ser um significado (pelo menos) da expressão, 'um pecado para a morte'; um pecado que Deus tem determinado punir através da morte do pecador. Se, por conseguinte, você cometeu um pecado deste tipo, e seu pecado apossou-se de você; se Deus está o punindo, através de algumas doenças severas, de nada adiantará orar pela sua vida; você está irrevogavelmente sentenciado a morrer. Mas observe! Isto não tem relação com a morte eterna. Isto, de forma alguma, significa que você está condenado a morrer a segunda morte. Não; isto preferivelmente implica o contrário: O corpo está sendo destruído, para que a alma possa escapar da destruição.

Eu mesmo, durante o curso de muitos anos, tenho visto numerosos exemplos disto. Eu conheci muitos pecadores (principalmente, apóstatas notórios, do mais alto grau de santidade, tais que deram muitos motivos para os inimigos da religião blasfemarem), aos quais Deus tem interrompido, no meio da jornada deles; sim, antes que eles tivessem vivido metade de seus dias. Esses, eu entendo, pecaram 'um pecado para a morte'; em conseqüência do que, eles foram removidos; algumas vezes, mais rapidamente, e algumas vezes, mais vagarosamente, através de um golpe inesperado. Mas, na maioria desses casos, observa-se que 'a misericórdia regozija-se sobre o julgamento'. E as próprias pessoas foram completamente convencidas da bondade, tanto quanto da justiça de Deus. Elas reconheceram que Ele destruiu o corpo, com o objetivo de salvar a alma. Antes que eles partissem disto, Ele curou a apostasia deles. De modo que eles morreram, para que vivessem para sempre.

Um exemplo muito notável disto ocorreu muitos anos atrás. Um jovem mineiro [das minas de carvão], em Kingswood, próximo a Bristol, foi um pecador eminente; e, mais tarde, um santo eminente. Mas, pouco a pouco, ele renovou sua familiaridade com seus velhos companheiros, que, vagarosamente, forjaram sobre ele, até que ele declinou de toda sua religião, e foi, duas vezes mais, um filho do inferno do que antes. Um dia, ele estava trabalhando em uma mina com um jovem sério que, de repente clamou: 'Ó, Tommy, que homem você foi uma vez! Como suas palavras e exemplo fizeram com que muitos amassem e praticassem as boas obras! E o que você é agora? O que aconteceria a você, se você fosse morrer, da maneira como está?'. 'Não, Deus me livre!', disse Thomas, 'porque, então, eu poderia ir para o inferno abruptamente! Oh! Vamos clamar a Deus!'. Eles assim fizeram, por um tempo considerável; primeiro um, depois o outro. Eles clamaram a Deus com clamores fortes e lágrimas; lutando com Ele, com orações fortes. Depois de algum tempo, Thomas irrompeu: 'Agora eu sei que Deus curou minha apostasia. Eu sei novamente, que meu Redentor vive, e que Ele tem me lavado de meus pecados com o próprio sangue. Eu desejo ir com ele'. Instantaneamente, parte da mina desabou, e o esmagou até a morte. Quem quer que tu sejas que tenhas pecado 'um pecado para a morte', coloca isto para o coração! Pode ser que Deus vá requerer tua alma de ti, em uma hora, quando tu não procuraste por isto! Mas, se Ele o fizer, existe misericórdia no meio do julgamento: tu não deverás morrer eternamente.

6. "Mas o que você poderá dizer daquela outra Escritura, a décima de Hebreus? Ela deixa alguma esperança para os apóstatas notórios, de que eles não deverão morrer eternamente; de que eles poderão sempre recuperar o favor de Deus, ou escapar do inferno? (Hebreus 10:26-29) 'Se nós pecarmos obstinadamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, resta nenhum outro sacrifício para os pecados; mas uma certa expectativa horrível pelo julgamento, e uma indignação veemente, que deverá devorar os adversários. Ele que desprezou a lei de Moisés morreu sem misericórdia, só pela palavra de duas ou três testemunhas. De quanta punição dolorosa mais, você supõe, se acha merecedor aquele que pisou no Filho de Deus, e que considerou o sangue da aliança, por meio do qual ele foi santificado, uma coisa impura, e menosprezou o Espírito da graça?'".

7. "E não se trata da mesma coisa, ou seja, o estado desesperado e irrecuperável dos apóstatas obstinados; completamente confirmado, através daquela passagem no sexto capítulo? (Hebreus 6:4) 'É impossível para os que foram iluminados uma vez; foram parceiros, do Espírito Santo,-- e caíram', -- assim está no original, -- 'renová-los para arrependimento;vendo que eles crucificaram a si mesmos o Filho de Deus novamente, e o expuseram à vergonha declarada'".

8. Essas passagens me parecem paralelas, uma a outra, e merecem nossa mais profunda consideração. E com o objetivo de entendê-las, será necessário saber:

(1) Quais são as pessoas das quais se fala aqui?

(2) Qual o pecado que eles cometeram, que tornou o caso delas quase, se não, completamente desesperado?

Esses, tão somente, 'provaram o dom celeste', remissão dos pecados, eminentemente assim chamada. Esses 'foram feitos parceiros do Espírito Santo', ambos da testemunha e frutos do Espírito. Este caráter não pode, com alguma propriedade, ser aplicado a qualquer um, a não ser aqueles que foram justificados.

E eles foram santificados também; pelo menos, no primeiro grau, tanto quanto todos que receberam remissão dos pecados. Assim também, a segunda passagem expressamente: 'aqueles que consideraram o sangue da promessa, por meio do qual ele foi santificado, uma coisa impura'.

Assim sendo, esta Escritura diz respeito, tão somente, àqueles que foram justificados, e, pelo menos em parte, foram santificados. Conseqüentemente, todos vocês que nunca estiveram assim 'iluminados' com a luz da glória de Deus; todos que nunca 'provaram do dom celestial'; que nunca receberam remissão de pecados; todos que nunca 'foram feitos parceiros do Espírito Santo'; da testemunha e fruto do Espírito; -- em uma palavra, todos que nunca foram santificados pelo sangue da aliança eterna, vocês não são referidos aqui. Por mais que outras passagens das Escrituras possam condenar vocês, certamente, vocês não serão condenados, quer pelo sexto ou décimo capítulos de Hebreus. Porque ambas essas passagens falam completamente e unicamente de apóstatas da fé, a qual eles nunca tiveram. Portanto, quaisquer que sejam os julgamentos denunciados nessas Escrituras, eles não são denunciados contra vocês. Vocês não são as pessoas aqui descritas, contra as quais apenas eles foram pronunciados.

Nós inquirimos a seguir: De qual pecado, as pessoas aqui descritas foram culpadas? Com o objetivo de entender isto, nós podemos lembrar que, sempre que os judeus prevaleceram sobre um cristão para apostatar-se, eles requereram que ele declarasse, em termos expressos, e isto em assembléia pública, que Jesus de Nazaré era um impostor; e que ele não sofreu qualquer punição que seus crimes justamente mereciam. Este é o pecado que Paulo denomina enfaticamente, na primeira passagem. 'cometer apostasia'; 'crucificando o Filho de Deus novamente, e o expondo à vergonha declarada'. Isto é o que ele denomina em Segundo lugar, considerando o sangue da aliança uma coisa impura; pisando sobre o Filho de Deus, e menosprezando o Espírito da graça'. Agora, qual de vocês abandonou a religião que antes professava? Qual de vocês 'crucificaram o Filho de Deus novamente?'. Nenhum: nem um de vocês, assim, 'expuseram o Senhor a uma vergonha declarada'. Se vocês renunciaram expressamente aquele 'sacrifício único pelo pecado', não existirá pecado algum restante; de modo que vocês devem ter perecido sem misericórdia. Mas este não é o caso de vocês. Nenhum de vocês renunciou assim aquele sacrifício, por meio do qual o Filho de Deus fez uma penitência completa e perfeita pelos pecados de todo o mundo. Por pior que vocês sejam, vocês estremecem ao pensar: por conseguinte, aquele sacrifício ainda permanece para vocês. Venham, então; atirem fora seus medos desnecessários! 'Venham corajosamente para o trono da graça'. O caminho ainda está aberto. Vocês devem novamente 'obter misericórdia, e encontrar graça para socorrer em tempo de necessidade'.

9. "Mas as palavras notórias do próprio nosso Senhor, não nos tira toda a esperança de misericórdia? Ele não diz: 'Toda maneira de pecado e blasfêmia deve ser perdoada ao homem: Mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não deverá ser perdoada. E quem quer que fale uma palavra contra o Filho do homem, ela deverá ser perdoada nele: Mas quem quer que fale uma palavra contra o Espírito Santo, ela nunca poderá ser perdoada nele; nem neste mundo, nem no mundo que há de vir?'".

"Portanto, está claro que, se nós temos cometido este pecado, não existe lugar para a misericórdia. E não se trata da mesma coisa repetida por Marcos, quase nestas mesmas palavras? 'Verdadeiramente eu lhes digo' (Um prefácio solene! Sempre denotando grande importância ao que se segue), 'que todos os pecados deverão ser perdoados aos filhos dos homens, e as blasfêmias, por mais que eles possam blasfemar: Mas, aquele que blasfema contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, mas está debaixo da sentença da condenação eterna'".
Quão imenso é o número daqueles que têm, mais ou menos, se afligido, com respeito a esta Escritura! Que multidão, neste reino, tem estado perplexa, acima da medida, concernente ao mesmo relato! Mais ainda; existem poucos que verdadeiramente estão convencidos do pecado, e se esforçam seriamente para salvar suas almas; que não têm sentido alguma inquietação, pelo temor que tenham cometido, ou possam cometer este pecado imperdoável. O que tem freqüentemente aumentado a inquietação deles, é que eles dificilmente poderiam encontrar algum conforto neles. Seus conhecidos, mesmo os mais religiosos deles, não entenderam mais do assunto do que eles mesmos; e eles não puderam encontrar escritor algum que tivesse publicado alguma coisa satisfatória sobre o assunto. De fato, nos 'Sete Sermões', do Sr. Russel, que eram comuns ,em meio deles, existe um, expressamente escrito sobre isto; mas ele fornece uma pequena satisfação a um espírito preocupado. Ele fala sobre isto e aquilo, mas diz nada: ele se esforça, mas perde o ponto, finalmente.
Mas existiu no mundo uma prova mais deplorável da pequenez do discernimento humano, mesmo naqueles que têm corações honestos, e são mais desejos do conhecimento da verdade? Como é possível que alguém que leia sua Bíblia possa permanecer uma hora em dúvida concernente a ela, quando o próprio nosso Senhor, na mesma passagem acima citada, tem tão claramente nos dito que blasfêmia é esta? 'Qualquer, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo, nunca obterá perdão, mas será réu do eterno juízo (Porque diziam: Tem espírito imundo)' (Marcos 3:29-30). Isto, então, e tão somente isto, (se nós permitimos que nosso Senhor entenda seu próprio significado) é a blasfêmia contra o Espírito Santo: O dizer que ele que tem um espírito impuro; o afirmar que Cristo forjou seus milagres, através do poder de um espírito pecaminoso; ou, mais particularmente, que 'Ele expulsou demônios, através de Belzebu, o príncipe dos demônios'. Agora, vocês se consideram culpados disto? Vocês têm afirmado que ele expulsou demônios, através do príncipe dos demônios? Não mais do que você cortar a garganta de seu próximo, e botar fogo em sua casa. Quão terrivelmente, então, vocês têm estado temerosos, onde não existe medo! Rejeitem esse terror vão; permitam que seu medo seja mais racional, daqui para frente. Estejam temerosos de dar lugar ao orgulho; temerosos de consentir na ira; temerosos de amar o mundo e as coisas do mundo; temerosos dos desejos tolos e danosos; mas nunca mais estejam temerosos de cometer a blasfêmia contra o Espírito Santo! Vocês não correm mais o risco de fazer isto, do que o sol de cair do firmamento.

10. Vocês não têm, então, motivo das Escrituras para imaginarem que 'o Senhor tem se esquecido de ser gracioso'. Os argumentos esboçados disto, vocês vêem, são de nenhum peso, são totalmente inconclusivos. E existe algum peso mais do que tem sido traçado da experiência ou dos fatos?

Este é um ponto que pode exatamente ser determinado, e com a mais extrema certeza. Se for perguntado: "Algum apóstata real encontrou misericórdia de Deus? Alguém que 'naufragou da fé e da boa consciência', recuperou o que eles tinham perdido? Vocês conhecem; vocês viram alguma instância de pessoas que encontraram redenção no sangue de Jesus, e que, mais tarde, tornaram-se apóstatas, e, ainda assim, foram restaurados, -- 'renovados no arrependimento?'". Sim, verdadeiramente; e não um, ou cem apenas, mas, eu estou persuadido, diversos milhares. Em todo lugar onde o braço do Senhor foi revelado, e, muitos pecadores convertidos a Deus, existem diversos edificados que 'voltaram atrás no santo mandamento entregue a eles'. Porque a grande parte desses 'teria sido melhor nunca terem conhecido o caminho da retidão'. Ela apenas aumenta a condenação deles, vendo que eles morreram em seus pecados. Mas existem outros que 'olham para ele que eles tinham trespassado, e lamentam', recusando-se a serem confortados. Mas, mais cedo ou mais tarde, Ele certamente erguerá a luz de seu semblante sobre eles; Ele fortalecerá os abatidos, e confirmará os joelhos fracos; Ele os ensinará a dizer: 'Minha alma magnífica o Senhor, e meu espírito se regozija em Deus, meu Salvador'. Inumeráveis são as instâncias deste tipo, dos que caíram, mas agora estão de pé. Realmente, está tão longe de ser uma coisa incomum para um crente cair e ser restaurado, que, preferivelmente, é incomum encontrar algum crente que não esteja consciente de ter sido um apóstata de Deus, em um grau maior ou menor, e, talvez, mais do que uma vez, antes que estivesse estabelecido na fé.

"Mas aqueles que caíram da santificação da graça, eles têm sido restaurados para a bênção que eles tinham perdido?". Esta também é uma questão de experiência; e nós temos tido a oportunidade de repetir nossas observações, durante um considerável curso de anos, e de um extremo ao outro do reino.

1°. Nós conhecemos um grande número de pessoas, de todas as idades e sexo, desde a mais tenra infância à idade mais avançada, que deram todas as provas de que a natureza da coisa admite, de que eles foram 'santificados completamente'; 'limpos de toda poluição da carne e espírito'; que eles 'amaram o Senhor, seu Deus, com todo seu coração, e mente e alma, e forças'; que eles continuamente apresentaram' suas almas e corpos 'como um sacrifício santo e aceitável para Deus'; em conseqüência do que, eles 'se regozijaram, sempre mais, oraram sem cessar; em todas as coisas dando graças'. E este, e não outro, é o que nós acreditamos ser a santificação verdadeira e bíblica.

2°. Uma coisa comum para esses que estão assim santificados, é acreditarem que eles não podem cair; é suporem que são os 'pilares no templo de Deus; e que não cairão mais'. Contudo, nós temos visto alguns dos mais fortes deles, depois de um tempo, movidos de sua firmeza. Algumas vezes, repentinamente; mas, mais freqüentemente, através de graus vagarosos, eles têm cedido à tentação; o orgulho, a ira, ou desejos tolos têm novamente brotado em seus corações. Mais ainda; algumas vezes, eles têm perdido a vida de Deus extremamente, e o pecado tem readquirido o domínio sobre eles.
3o. Ainda assim, diversos desses, depois de estarem completamente conscientes de sua queda, e, profundamente envergonhados diante de Deus, têm sido novamente preenchidos com seu amor -- e não apenas aperfeiçoados nele, mas firmados, fortificados, e estabelecidos. Eles têm recebido a bênção que eles tinham antes com abundante crescimento. Mais do que isto: muitos que tinham caído, tanto da justificação, quanto da graça santificadora, e tão profundamente, que dificilmente foram classificados em meio aos servos de Deus, foram restaurados, (mas raramente, até que eles tivessem sido chacoalhados, como aconteceu, sobre a boca do inferno), e isto muito freqüentemente, de imediato, restituindo tudo o que tinham perdido. Eles recuperaram imediatamente a consciência do favor de Deus, e a experiência de Seu puro amor; em um só momento, eles receberam, mais uma vez, a remissão dos pecados, e muitos, em meio deles, foram santificados.
Mas que nenhum homem afirme desta longanimidade de Deus, que Ele tem dado a qualquer um a licença para pecar. Nem alguém ouse continuar no pecado, por causa dessa instância extraordinária da misericórdia divina. Esta é a presunção mais desesperada, e mais irracional, e que conduz à destruição extrema e irrevogável. Em toda minha experiência, eu não tenho conhecido um que fortificou a si mesmo no pecado, pela presunção de que Deus iria salvá-lo, no final; que não estivesse miseravelmente desapontado, e sujeito a morrer em seus pecados. Fazer da graça de Deus um encorajamento para o pecado é o caminho certo para o inferno mais baixo! As considerações precedentes não foram designadas a esses filhos desesperados da perdição; mas para aqueles que sentem 'a lembrança de seus pecados os afligindo; o fardo deles intolerável'. Nós colocamos diante desses uma porta aberta de esperança. Permita que eles entrem, e dêem graças ao Senhor; permita que eles saibam que 'o Senhor é gracioso e misericordioso; longânime, e de grande bondade'. 'Veja o quão alto os céus estão da terra! Tão longe Ele irá colocar os pecados deles de si mesmos'. "Ele não será sempre repreensivo; nem Ele manterá sua ira para sempre". Apenas coloquem em seus corações, que 'eu darei tudo para todos, e a oferta deverá ser aceita'. Dêem a Ele todo seu coração! Que tudo que esteja em vocês continuamente clame: 'Tu és meu Deus, e eu serei grato a ti; tu és meu Deus, e eu louvarei a Ti'. 'Este Deus é meu Deus para sempre e sempre! Ele será meu guia até a morte'.

[Editado por Michael Anderson, estudante da Northwest Nazarene College (Nampa, ID), com correções de George Lyons para a Wesley Center for Applied Theology.]




sexta-feira, 29 de julho de 2011

QUEM ESTÁ RESISTINDO À IGREJA?


QUEM ESTÁ RESISTINDO À IGREJA?

                                                                                                                      




Francis Frangipane



Freqüentemente, quando prego em conferências de oração em favor de cidades ou regiões específicas, as pessoas me pedem para desmascarar o "poder espiritual" que está se opondo ao corpo de Cristo naquela região. Já chegaram ao ponto de pedir que eu revele o "nome" do espírito ou príncipe que resiste ao crescimento e ao reavivamento das igrejas naquela área geográfica. "Vocês realmente querem saber o nome do espírito mais poderoso que resiste à maioria dos cristãos?" eu pergunto. Aí vejo os rostos dos presentes se iluminarem com expectativa.
"É Yaveh." (Jeová)
A audiência, que de repente parece mais uma árvore cheia de corujas, sempre fica perplexa com minha resposta. As pessoas têm certeza que não entendi a pergunta delas até eu explicar que, de acordo com as Escrituras, é o próprio Deus quem "resiste aos soberbos" (Tiago 4.6). Desta forma, se estivermos divididos nos nossos corações de outras igrejas, ou se estivermos de alguma forma nos autopromovendo na nossa atitude, estamos andando em orgulho. Conseqüentemente, o Espírito que se levanta para se opor aos nossos esforços não é demoníaco; é Deus.
Deus não tolera orgulho, especialmente o orgulho religioso. E é essa característica religiosa do orgulho – através da qual nos ufanamos dos nossos feitos, ficamos inchados com o nosso conhecimento ou julgamos as outras pessoas – que faz com que o Deus vivo se posicione contra muitos dos nossos esforços para ganhar as nossas cidades para Cristo.
O Senhor não desculpará nosso orgulho simplesmente porque cantamos três hinos aos domingos, e nos consideramos "salvos". Deus resistiu ao orgulho de Lúcifer no céu, e se oporá ao nosso orgulho na terra. O mais triste de tudo é que o orgulho religioso foi tão misturado à nossa experiência cristã que nem mesmo conseguimos perceber que há algo de errado. Entretanto, sem dúvida é o pecado mais ofensivo manifesto na igreja.
O Senhor não quer que os perdidos sejam enxertados em igrejas onde vão assimilar o veneno do orgulho na mesma mesa onde recebem a salvação.

Quem Busca e Julga

De fato, o orgulho religioso é o pior tipo de idolatria, porque coloca o homem no lugar de Deus. Jesus disse o seguinte a respeito de si: "Eu não busco a minha glória; há quem a busque, e julgue" (João 8.50). Quantas das nossas ações traduzem exatamente o contrário da natureza de Cristo! Nossa escolha de roupas e carros, casas e vocações na vida, tão freqüentemente é baseada fundamentalmente na exaltação de si mesmo.
Prestemos atenção cuidadosa às palavras de Jesus. Toda vez que procuramos nos exaltar, entramos em confronto direto com Deus. Uma dimensão do coração do Pai é que ele procura e julga os que pelo orgulho se autopromovem. De fato, meu querido, precisamos considerar com temor santo nossa tradição ocidental de autopromoção. Ainda que seja altamente valorizada entre os homens, "perante Deus é abominação" (Lucas 16.15).
O Velho Testamento está repleto de ilustrações que demonstram a oposição de Deus ao orgulho do homem. Vez após vez, não eram os inimigos de Israel que impediam a prosperidade da nação – era o próprio Deus. O Senhor permitia que os adversários de Israel humilhassem a seu povo, impelindo-o ao desespero, à humildade, e finalmente ao arrependimento. Lá em quebrantamento e honestidade, Deus podia tratar com seus pecados e conduzi-los a um avivamento nacional.
O clamor de Deus a Israel é o mesmo para nós hoje: "Oxalá me escutasse o meu povo! Oxalá Israel andasse nos meus caminhos! Em breve eu abateria os seus inimigos, e voltaria a minha mão contra os seus adversários" (Salmos 81.13-14).

Assim é conosco. Precisamos que o poder de Deus seja liberado contra nossos inimigos. Sim, potestades terríveis das trevas têm invadido a nossa nação. O adversário anda pelas nossas ruas procurando a quem possa devorar (1 Pedro 5.8). Entretanto, a nossa esperança não está em confrontarmos o inimigo e sim em nos entregarmos totalmente a Deus. Nossa vitória sobre o inimigo está ligado diretamente à nossa entrega total a Deus.
Se verdadeiramente "aprendêssemos dele", então nós, como Jesus, seríamos "mansos e humildes de coração" (Mateus 11.29). E Deus, que dá graça aos humildes, nos resgataria dos inimigos espirituais do nosso país (Tiago 4.6).

Sarar Nossa Terra

A promessa do Senhor é muito conhecida. Ele diz: "Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face, e se desviar dos seus maus caminhos, então eu ouvirei do céu, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra" (2 Crônicas 7.14).
Talvez alguns de nós diríamos: "Mas eu estou me humilhando e orando". Entretanto, a nossa humildade diante de Deus não é completa, até que aprendamos a nos humilhar não somente diante de Deus mas também diante dos outros.
De fato, devido ao orgulho, ainda temos que aceitar o que o Senhor quer dizer quando diz: "Se o meu povo". Nós ainda interpretamos "Meu povo" como sendo nosso povo – nosso círculo limitado de amigos, parentes e cristãos cuja cultura e sistema de culto são semelhantes aos nossos.
Porém, quando o Senhor pensa sobre o seu povo, ele vê um grupo muito mais abrangente. Ele vê todos na cidade "que são chamados pelo seu nome". Aos olhos de Deus, seu povo constitui um grupo diversificado de muitas procedências denominacionais e étnicas, sendo que cada uma tem recebido dons e capacidades distintas para beneficiar todo o corpo de Cristo naquela cidade.
Nós, evangélicos, comercializamos as nossas diferenças e ao mesmo tempo sentimo-nos ameaçados pelos dons e capacidades dos outros. Aproveitando os nossos temores, Satanás não somente tem causado divisão entre nós, como também tem nos tornado orgulhosos pelo fato de estarmos separados. Achamos que separar-nos dos outros é uma virtude. E é por causa dessa ruptura dos nossos relacionamentos que as feridas da nossa sociedade ficam sem cura.
Considere o seguinte: somente um grupo de pessoas foi continuamente confrontado e resistido pelo Senhor no Novo Testamento: os fariseus. De todos os grupos religiosos no primeiro século, aquele com o qual a igreja mais se assemelha hoje não é o dos cristãos, mas o dos fariseus, cujo nome significa "os separados".
Queremos que Deus sare a nossa terra. Mas a terra que ele pretende sarar é aquela que está debaixo dos pés dos humildes. A cura só irá fluir quando nos tornarmos "seu povo" nas nossas cidades – à medida que nos humilharmos e reconhecermos as áreas específicas onde cada um de nós tem falhado em revelar Jesus em nossos relacionamentos com os outros.
O remédio de Deus para a sociedade exige que os cristãos irreconciliados uns com os outros "se humilhem e orem". A chave está nos nossos relacionamentos diários. Estamos sempre tão conscientes daquilo que outros fizeram para nós, mas onde temos falhado com eles? O que podemos fazer para curar a terra que existe entre nós e as pessoas que ferimos? Quando igrejas com expressões diferentes se humilham e buscam a face de Deus juntas, uma fonte de vida começa a jorrar a partir daquele novo começo.
Se Deus resiste aos soberbos, lembre-se que dá graça aos humildes. Graça é mais do que ser coberto; é ser purificado e transformado pelo poder de Deus. Graça é o poder transformador de Deus fazendo em nós o que não podemos fazer por nós mesmos.
O perdão lava a nossa cultura do entulho de ontem. É quando os nossos joelhos se dobram em humildade pedindo perdão pela nossa participação na ferida que existe entre nós e os outros, que Deus ouve do céu – e sara a terra debaixo dos nossos pés.


Traduzido e publicado com permissão de Arrow Publications: PO Box 10102, Cedar Rapids, IA 52410, EUA. Outras informações podem ser obtidas no seu site: www.inchristsimage.org









quinta-feira, 21 de julho de 2011

Dinheiro - A MOEDA DO PRAZER CRISTÃO


O dinheiro é a moeda do prazer cristão. O que você faz com ele — ou deseja fazer com ele— pode trazer ou levar sua felicidade para sempre. A Bíblia deixa muito claro que o que você sente pelo dinheiro pode destruir você:

Os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição (lTm 6.9).

Ou o que você faz com o dinheiro pode servir de base para a vida eterna:

Sejam [os ricos] generosos em dar e prontos a repartir; [...] acumulem para Si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida (lTm 6.18, 19).



Estes versículos nos ensinam a usar nosso dinheiro de uma maneira que nos traga o maior ganho possível e o mais duradouro. Em outras palavras, eles advogam o prazer cristão. Eles confirmam que Deus não apenas permite mas ordena que fujamos da destruição e busquemos nosso prazer pleno e duradouro. Eles mostram que todos os males do mundo advêm não porque nossos desejos de felicidade sejam fortes demais, mas porque são tão fracos que nos satisfazemos com prazeres passageiros que não atendem aos desejos profundos da nossa alma, mas acabam por destruí-la. A raiz de todo mal é que nós somos pessoas do tipo que se acomodam ao amor pelo dinheiro em vez de buscar o amor por Deus (1Tm 6.10).

Fuja do desejo de ser rico

Esse texto em ITimóteo é tão crucial que devemos meditar nele mais detidamente. Paulo está advertindo Timóteo contra ...homens cuja mente é pervertida e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro. De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma poderemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a Si mesmos se atormentaram com muitas dores.

Paulo escreve a Timóteo uma palavra de advertência contra enganadores ardilosos que descobriram que podiam lucrar com o crescimento dos crentes em Éfeso. De acordo com o v. 5, esses polemistas arrogantes tratam a vida espiritual como uma fonte de ganho. Estão tão presos ao amor ao dinheiro que a verdade ocupa um lugar bem inferior em seus sentimentos. Eles não "se alegram na verdade". Alegram-se com a sonegação de impostos. Estão dispostos a aproveitar-se de qualquer novo motivo de interesse popular para ganhar alguns trocados.

Nada é sagrado. Se o lucro é gordo, as estratégias de propaganda são indiferentes. Se ser cristão está na moda, é isto que eles vão vender.

Este texto é muito atual. Vivemos dias de muita lucratividade no campo da religião. Está aquecido o mercado de livros, discos, cruzes de prata, brincos de peixes, abridores de cartas de madeira de oliveira, adesivos para carros, crucifixos, vidrinhos com água do rio Jordão que fazem você ganhar no bingo ou receber seu dinheiro de volta em noventa dias. Vivemos dias lucrativos para quem está no ramo da espiritualidade!

Ele não disse: "Não tire lucro"

Tanto hoje como antigamente, Paulo poderia ter reagido assim ao esforço de lucrar com a religiosidade: "Um cristão não pode ter lucro. Um cristão faz o que é certo por amor à verdade. Cristãos não são motivados pelo que podem ganhar". Mas não foi isso que Paulo disse. O que ele disse foi: "Grande fonte de lucro é a piedade com contentamento" (v. 6).

Em vez de dizer que os cristãos não vivem em função do lucro, ele defende que eles devem correr atrás de um ganho maior do que os espertos amantes do dinheiro. A piedade é o meio para obter esse grande lucro, mas apenas se nos contentarmos com a simplicidade em vez de sermos gananciosos por riquezas. "Piedade com contentamento é grande fonte de lucro".

Se sua piedade, seu amor a Deus, o libertou do desejo de ficar rico e o ajudou a estar contente com o que tem, então sua vida cristã provou ser tremendamente lucrativa. "O exercício físico para pouco é proveitoso, mas a piedade para tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser" (ITm 4.8). Espiritualidade que derrota a ganância por riquezas materiais gera grande riqueza espiritual. O que o v. 6 quer dizer é que é muito lucrativo não correr atrás das riquezas.

O que segue nos v. 7-10 são as três razões por que não devemos ambicionar riquezas.

Receber aumento não é a mesma coisa que ficar rico

Primeiro deixe-me inserir um esclarecimento. Vivemos em uma sociedade em que muitos negócios legítimos dependem de grande, concentrações de capital. Você não pode construir uma nova fábrica sem investir milhões. Por isso, executivos financeiros em grandes empresas muitas vezes têm a responsabilidade de formar reservas, por exemplo vendendo ações à comunidade. Ao condenar o desejo de ficar rico, a Bíblia não está necessariamente condenando uma firma que planeja expandir-se e para isso procura formar grandes reservas de capital. Os diretores do empreendimento podem ter a ambição de pessoalmente ficar mais ricos, ou a motivação mais nobre de como o aumento da sua capacidade de produção pode beneficiar as pessoas.

Mesmo quando uma pessoa que é competente em sua profissão recebe uma oferta de emprego com maior remuneração e a aceita, isso não é motivo suficiente para condená-la como se estivesse querendo ficar rica. Ela pode ter aceitado o emprego por causa do poder, da posição social e dos luxos que o dinheiro pode lhe trazer. Ou, contente com o que tem, pode querer usar o dinheiro extra para criar uma agência de adoções, dar uma bolsa, enviar um missionário, ou ajudar um ministério em algum bairro.

Trabalhar para ganhar dinheiro para a causa de Cristo não é a mesma coisa que querer ficar rico. Paulo não está advertindo contra o desejo de ganhar dinheiro para suprir nossas necessidades ou as de outros, mas contra o desejo de termais e mais dinheiro e contra promover o ego e o luxo material que ele pode proporcionar.

Carros funerários não têm reboques

Vejamos as três razões que Paulo dá nos v. 7-10 por que não devemos aspirar ser ricos:

1) Nov. 7 ele diz: "Nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele". Carros funerários não têm reboques.

Imagine que alguém passe de mãos vazias pelas catracas de um grande museu de arte e comece a tirar os quadros das paredes e carregá-los embora debaixo do braço. Você vai até ele e pergunta:

—O que você está fazendo?

—Estou me tornando um colecionador de arte — ele responde.

— Mas esses quadros não são seus—você revida. Ninguém vai deixar você sair daqui com eles. Você tem de sair do mesmo jeito que entrou.

Mas ele insiste:

—É claro que esses quadros são meus. Estão debaixo do meu braço. As pessoas nos corredores consideram-me um importante negociador de quadros. E não estou me preocupando com a idéia de sair. Não seja um estraga-prazeres.



Nós diríamos que essa pessoa é maluca! Está fora da realidade. O mesmo acontece com quem se ocupa em ficar rico nesta vida. Nós sairemos dela exatamente do modo que entramos.

Ou imagine 269 pessoas chegando à eternidade por causa da queda de um avião no mar do Japão. Nele havia um político importante, um empresário milionário, um playboy e sua amante, e um filho de missionários voltando de uma visita aos avós.

Agora eles estão diante de Deus totalmente privados de seus cartões de crédito, talões de cheques, linhas de crédito, roupas finas, livros de auto-ajuda e reservas de hotel. Ali estão o político, o executivo, o playboy e o filho de missionários todos no mesmo nível, com absolutamente nada nas mãos, possuindo apenas o que traziam no coração. Que absurda e trágica será naquele dia a posição do homem que amava o dinheiro — como a de alguém que passou a vida toda colecionando bilhetes de metrô e no fim não consegue carregar todos eles e perde o último trem. Não passe sua vida preciosa tentando ficar rico, diz Paulo, porque "nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele".

A simplicidade é possível e boa

2) Em seguida, no v. 8, Paulo acrescenta a segunda razão por que não devemos correr atrás das riquezas: "Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes". O cristão pode e deve estar contente ao ter supridas as necessidades mais simples da vida.

Mencionarei três razões por que essa simplicidade é possível e boa: Primeira, quando você tem Deus perto de você e a favor de você, não precisa de mais dinheiro ou coisas para ter paz e segurança:

Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma, te deixarei, nunca jamais te abandonarei. Assim, afirmemos confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem? (Hb 13.5, 6).



Não importa em que direção o mercado está andando, Deus é sempre melhor do que o ouro. Por isso, com a ajuda de Deus podemos e devemos estar contentes com o suprimento das necessidades mais simples da vida.

Segunda, podemos estar contentes na simplicidade porque os prazeres mais profundos e satisfatórios que Deus nos dá pela criação são dádivas gratuitas da natureza e de relacionamentos amorosos com pessoas. Depois que suas necessidades básicas estão supridas, o acúmulo de dinheiro começa a diminuir sua capacidade de sentir esses prazeres, em vez de aumentá-la. Comprar coisas não contribui em nada para a capacidade do coração de alegrar-se.

Há uma diferença profunda entre a empolgação temporária com um novo brinquedo e um abraço de boas-vindas de um amigo do peito. Quem você acha que tem a alegria mais profunda e satisfatória na vida: o homem que paga 250 dólares por uma suíte num hotel de primeira e passa a noite no saguão com pouca luz e muita fumaça, impressionando mulheres desconhecidas com bebidas a 10 dólares por dose, ou o homem que escolhe um quarto de hotel por 40 dólares com vista para uma plantação de girassóis e para o pôr-do-sol, e passa a noite escrevendo uma carta apaixonada para sua mulher?

Terceira, devemos nos contentar com as necessidades mais simples da vida porque podemos investir o que ganhamos a mais naquilo que reamente importa. Atualmente há três bilhões de pessoas longe de Jesus Cristo. Dois terços destas não têm um testemunho cristão observável em sua cultura. Para que elas ouçam — e Cristo mandou que ouvissem— missionários transculturais têm de ser enviados e sustentados. Toda a riqueza necessária para enviar esse novo exército de embaixadores das boas novas já está na igreja.

Se nós, como Paulo, estamos contentes com as necessidades mais simples da vida, centenas de milhões de dólares na igreja serão investidos para levar o evangelho à linha de frente. A revolução de alegria e liberdade que isso causaria na igreja enviadora seria o melhor testemunho local imaginável. O chamado bíblico é que você pode e deve estar contente tendo as necessidades mais simples da vida satisfeitas.

Como traspassar o coração com muitas dores

3) A terceira razão para não correr atrás das riquezas é que essa busca acabará destruindo a sua vida. Essa é a lição dos v. 9 e 10:

Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.



Nenhum cristão que busca o prazer desejará lançar-se na ruína e destruição e ser atormentado com muitas dores. Por isso nenhum cristão que ama o prazer deseja ser rico.

Faça um teste consigo mesmo. Você aprendeu com a Bíblia sua atitude em relação ao dinheiro ou a absorveu dos meios de comunicação atuais? Ao andar de avião e ler a revista de bordo, verá que quase cada página ensina e passa um conceito de riqueza exatamente contrário ao de 1 Timóteo 6.9 de que aqueles que querem ser ricos cairão em ruína e destruição. Paulo mostra com muita clareza o perigo que há exatamente no desejo que as revistas exploram e promovem.

As imagens da riqueza

Lembro-me de uma propaganda de página inteira de uma cadeira giratória que mostrava um homem em um escritório todo atapetado. A frase que se destacava dizia: "Seus ternos são feitos por encomenda. Seu relógio é folheado a ouro. Sua cadeira de escritório é...". Sob o retrato do homem lia-se isto:

Trabalhei arduamente e também tive sorte: meu negócio é bem sucedido. Eu queria que meu escritório refletisse isso, e acho que consegui. Para minha cadeira escolhi uma da marca .... Ela combina com a imagem que eu queria transmitir. [...] Se você não pode dizer isso da sua cadeira, será que não está na hora de sentar-se em uma ...? Afinal de contas, você já não ficou muito tempo sem uma dessas?



A filosofia da riqueza nessas linhas é mais ou menos assim: se você trabalhou para ter as imagens da riqueza, seria burrice negá-las a Si mesmo. Se ITimóteo 6.9 é verdadeiro, e o desejo de ser rico nos leva à arapuca de Satanás e à destruição no inferno, então esse anúncio, que explora e promove o desejo, é tão destrutivo como qualquer coisa que você leia nos anúncios sobre sexo em um grande jornal.

Você está alerta e livre das mensagens falsas da propaganda? Ou será que a onipresente mentira econômica enganou-o a ponto de o único pecado em que você consegue pensar em relação ao dinheiro ser o roubo? Eu sou a favor da liberdade de expressão e de iniciativa porque não tenho nenhuma fé na capacidade moral de um governo pecaminoso de melhorar as instituições criadas por indivíduos pecaminosos. Mas, em nome de Deus, usemos nossa liberdade como cristãos para dizer não à ambição da riqueza e sim à verdade: há grande lucro na piedade, quando nos contentamos com a satisfação das necessidades mais simples da vida.

O que os ricos devem fazer?

Até aqui estivemos refletindo sobre as palavras dirigidas em ITimóteo 6.6-10 a pessoas que não são ricas mas são tentadas a ser. Em ITimóteo 6.17-19, Paulo fala a um grupo na igreja que já é rico. O que uma pessoa rica deve fazer com seu dinheiro quando se torna cristã? E que o cristão deve fazer se Deus fizer seu trabalho prosperar a ponto de ele ter grandes riquezas à sua disposição? Paulo responde nestes termos:

Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento; que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para Si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida.



As palavras do v. 19 simplesmente parafraseiam o ensino de Jesus, que disse:

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.

Jesus não é contra o investimento. Ele é contra o mau investimento — ou seja, colocar o coração no conforto e segurança que o dinheiro pode comprar neste mundo. O dinheiro deve ser investido em títulos eternos no céu — "ajuntai para vós outros tesouros no céu!" Como?

Lucas 12.32-34 nos dá uma resposta:

Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino. Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não desgastam, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a traça consome, porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.



Portanto, a resposta à pergunta de como acumular tesouros no céu é gastar os tesouros terrenos em projetos de misericórdia em nome de Cristo aqui na terra. Dê esmolas — isto é, arranje para si uma bolsa no céu. Observe que Jesus não está dizendo simplesmente que o tesouro no céu será o resultado inesperado da generosidade na terra. Não, ele diz que devemos objetivar o tesouro no céu. Ajunte-o! Consiga para si bolsas e tesouros que não se estragam! Isso é puro prazer cristão.

Você receberá seus dividendos na ressurreição dos justos

Outro exemplo disso no ensino de Jesus está em Lucas 14.13, 14, em que ele é mais específico sobre como devemos usar nossos recursos para acumular tesouros no céu:

Ao dares um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos.



Isto é praticamente o mesmo que dizer: "Dê esmolas; faça um tesouro no céu". Não busque a recompensa em títulos terrenos. Seja generoso. Não pavimente sua vida com luxos e confortos. Olhe para a ressurreição e para a grande recompensa em Deus, "em cuja presença há plenitude de alegria, em cuja destra, delícias perpetuamente" (SL 16.11).

Cuidado para não ser mais sábio que a Bíblia

Tome cuidado com comentaristas que desviam a atenção do sentido direto desses textos. Por exemplo, o que você acharia desse comentário comum sobre Lucas 14.13, 14: "A promessa de recompensa para esse tipo de vida consta aí como fato. Você não vive desse jeito pensando na recompensa. Se estiver, na verdade não está vivendo desse jeito mas do velho jeito egoísta".1

Será isso verdade — que somos egoístas e sem amor se formos motivados pela recompensa prometida? Se é assim, por que Jesus nos estimulou mencionando a recompensa, até colocando-a como base da nossa ação? E o que esse comentarista diria sobre Lucas 12.33, em que não nos é dito que a recompensa resultará de darmos esmolas, mas que devemos buscar ativamente a recompensa — "fazei para vós outros bolsas!"?

E o que diria ele sobre a parábola do administrador desonesto (Lc 16.1-13), em que Jesus conclui: "Das riquezas de origem iníqua fazei amigos; para que, quando aquelas vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos" (Lc 16.9)? O objetivo dessa parábola é instruir os discípulos no uso correto e amoroso das posses terrenas. Jesus não diz que a conseqüência desse uso é receber habitações celestiais. Ele diz: que seja o seu objetivo garantir uma habitação eterna com o uso dos seus bens.

Portanto, é simplesmente errado dizer que Jesus não quer que busquemos a recompensa que ele promete. Ele ordena que a busquemos (Lc 12.33; 16.9). Mais de quarenta vezes no evangelho de Lucas temos promessas de recompensa e ameaças de castigo ligadas aos mandamentos de Jesus.2

É claro que não devemos buscar a recompensa do louvor terreno ou do ganho material. Isso é evidente não apenas em Lucas 14.14, mas também em Lucas 6.35: "Amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo". Em outras palavras, não ligue para recompensas terrenas; olhe para a recompensa celestial, isto é, para as alegrias infinitas de ser filho de Deus!

Ou, como Jesus diz, em Mateus 6. 5, 4, não se importe com o louvor humano para seus atos de misericórdia. Se este é o seu propósito, isto é tudo o que você vai ganhai, e essa recompensa será lastimável comparada com a recompensa de Deus. "Ao dares esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê cm secreto, te recompensará."

Atraindo outros para a recompensa, amando-a

A razão por que nossa generosidade em relação aos outros não é amor fingido quando somos motivados pelo anseio pela promessa de Deus, é que nosso objetivo é levar os outros conosco para essa recompensa. Sabemos que nossa alegria no céu será maior se as pessoas que tratamos com misericórdia forem convencidas do valor insuperável de Cristo e se juntarem a nós no louvor a ele.

Todavia, como lhes mostraremos o valor infinito de Cristo se nós mesmos não formos impelidos, em tudo o que fazemos, pelo anseio de ter mais dele? Seria apenas falta de amor buscar a própria alegria à custa de outros. Mas se nossa busca inclui a alegria deles, como isso pode ser egoísta? Como posso eu ser menos amoroso se meu anseio por Deus me move a entregar minhas posses terrenas de modo que minha alegria nele possa ser duplicada para sempre na parceria com o outro em louvor?

Fazendo para Si mesmo um bom alicerce

O ensino de Paulo aos ricos em ITimóteo 6.19 continua e aplica esses ensinos de Jesus nos evangelhos. Eles diz que as pessoas ricas devem usar o dinheiro de uma maneira que coloque para eles um "sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida". Em outras palavras, há uma maneira de usar nosso dinheiro que nos faz perder a vida eterna.3

Sabemos que Paulo tem a vida eterna em vista porque sete versículos antes ele usa o mesmo tipo de expressão referindo-se a ela: "Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado e de que fizeste a boa confissão perante muitas testemunhas" (lTm6.12).

A razão por que o uso do nosso dinheiro proporciona um bom fundamento para a vida eterna não é que a generosidade faz por merecer a vida eterna, mas que ela mostra onde está o nosso coração. A generosidade confirma que nossa esperança está em Deus e não em nós mesmos ou no nosso dinheiro. Nós não conquistamos a vida eterna. Ela é uma dádiva da graça (2Tm 1.9). Nós a recebemos ao descansar na promessa de Deus. Depois, como usamos nosso dinheiro confirma ou nega a realidade desse descanso.

Orgulho das posses

Paulo dá três instruções aos ricos sobre como usar o dinheiro para confirmar seu futuro eterno.

Primeira, não deixe seu dinheiro gerar orgulho. "Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos" (1Tm 6.17). Como nosso coração é enganoso quando se trata de dinheiro! Todos nós já tivemos o sentimento de superioridade que se infiltra depois de um investimento inteligente, após uma nova aquisição ou por causa de um grande depósito. As principais atrações do dinheiro são o poder que dá e o orgulho que alimenta. Paulo diz que não devemos deixar isso acontecer.

Por que é tão difícil para o rico receber a vida eterna

Em segundo lugar, ele acrescenta no v. 17: "... não depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento". Para o rico, isso não é fácil. Foi por isso que Jesus disse que é difícil para um rico entrar no reino de Deus (Mc 10.23). É difícil olhar para toda a esperança terrena que as riquezas oferecem e depois voltar-se dela para Deus, e fazer repousar toda a esperança nele. É difícil não amar a dádiva e sim o Doador. Mas essa é a única esperança para o rico. Se não puder fazer isso, estará perdido.

Ele precisa lembrar-se da advertência que Moisés deu ao povo de Israel quando este entrou na terra prometida:

Não digas, pois, no teu coração: A minha força e o poder do meu braço me adquiriram estas riquezas. Antes, te lembrarás do Senhor, teu Deus, porque é ele que te dá força para adquirires riquezas; para confirmar a sua aliança, que, sob juramento, prometeu a teus pais, como hoje se vê (Dt 8.17, 18).



O grande perigo das riquezas é que nossos sentimentos são desviados de Deus para as suas dádivas.

Será que esse ensino é de saúde, riqueza e prosperidade?

Antes de passar para a terceira exortação de Paulo aos ricos, temos de considerar um mau uso comum do v. 17. O texto diz que Deus "tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento". Isso significa em primeiro lugar que Deus geralmente é generoso na provisão que faz para atender nossas necessidades. Ele proporciona as coisas "ricamente". Em segundo lugar, significa que não precisamos nos sentir culpados por ter prazer nas coisas que ele nos dá. Elas foram dadas "para a nossa satisfação" (NVI). Jejum, celibato e outras formas de autonegação são corretas e boas no serviço de Deus, mas não devem ser exaltadas como norma espiritual. As provisões da natureza são dadas para o nosso bem e, por meio da nossa alegria diante de Deus, podem tornar-se ocasiões para ação de graças e adoração (lTm 4.2-5).

Todavia, nos dias atuais uma doutrina de riqueza e prosperidade grassa a nossa volta, moldada pela meia verdade que diz: "Nós glorificamos Deus com o nosso dinheiro, alegrando-nos em gratidão em todas as coisas que ele nos possibilita comprar. Por que um filho do Rei haveria de viver como um mendigo?" E assim por diante. A metade verdadeira dessa colocação é que devemos dar graças por toda coisa boa que Deus nos possibilita ter. Isso o glorifica. A metade falsa é a implicação enganosa de que Deus pode ser glorificado, desse modo, por toda e qualquer aquisição de luxo.

Se isso fosse verdade, Jesus não teria dito: "Vendei os vossos bens e daí esmolas" (Lc 12.33). João Batista não teria dito: "Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem" (Lc 3.11). O Filho do homem não teria andado por aí sem ter onde repousar a cabeça (Lc 9.58). E Zaqueu não teria dado metade dos seus bens aos pobres (Lc 19.8).

Deus não é glorificado quando ficamos (não importa quão agradecidos estejamos) com o que deveríamos estar usando para aliviar a desgraça dos milhões que estão sem o evangelho, sem educação, sem tratamento médico, sem comida. A evidência de que muitos que professam ser cristãos foram iludidos por essa doutrina é quão pouco eles dão e quanto eles têm. Deus os fez prosperar. E por uma lei quase irresistível da cultura do consumo (batizados por uma doutrina de saúde, riqueza e prosperidade), compraram (mais e) maiores casas, carros mais novos (e em maior número), roupas mais sofisticadas (e em maior número), mais (e melhores) carnes, e todo tipo de bijuterias, engenhocas, utensílios, instrumentos e equipamentos para tornar a vida mais divertida.

Por que Deus faz muitos santos prosperar

Haverá quem diga: o Antigo Testamento não promete que Deus fará seu povo prosperar? É verdade! Deus aumenta nosso capital para que, dando, possamos provar que nosso capital não é nosso deus. Deus não faz prosperar o negócio de alguém para que possa trocar o carro popular por um modelo de luxo. Deus faz negócios prosperarem para que milhares de povos ainda não evangelizados possam ser alcançados com o evangelho. Ele faz um negócio prosperar para que 12% da população do mundo possa dar um passo para trás, afastando-se do precipício da inanição.

Sou pastor, não economista. Por isso vejo meu papel hoje em dia como James Stewart viu o seu na Escócia de três décadas atrás:

É função dos economistas, e não dos pregadores, elaborar planos de reconstrução. Mas, enfaticamente, é função do pregador despertar as pessoas em terras longínquas para que acordem para a formidável piedade de Jesus, para que abram seu coração à coação dessa compaixão divina que faz brilhar sua santidade em torno dos oprimidos e sofridos, e lançar chamas de juízo contra todo mal social. [...] Não há lugar para a pregação despida de franqueza ética e de paixão social, em dias em que as trombetas do céu ressoam e o Filho de Deus sai para a guerra.4



Nosso chamado: um estilo de vida pronto para a guerra

A referência à "guerra" não é apenas retórica. Precisa-se hoje em dia especificamente de um "estilo de vida pronto para a guerra". Usei a expressão "necessidades mais simples da vida" no começo deste capítulo porque Paulo disse em ITimóteo 6.8: "Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes". Essa idéia de simplicidade, contudo, pode ser enganosa. Entendo que ela se refere a um estilo de vida que não se carrega de coisas que não são essenciais — e o critério para o que é "essencial" não deve ser a antiga "simplicidade", mas a eficiência para tempos de guerra.

Ralph Winter ilustra essa idéia de estilo de vida pronto para a guerra:

O Queen Mary, ancorado no porto de Long Beach, na Califórnia, é um museu fascinante do passado. Usado tanto como navio de luxo em tempos de paz como para transporte de tropas durante a Segunda Guerra Mundial, sua condição atual de museu do tamanho de três campos de futebol serve de contraste impressionante entre o estilo de vida apropriado em tempo de paz ou de guerra. Em um lado da divisória você vê o salão de jantar reconstruído para retratar a disposição das mesas em tempos de paz, para uso dos ricaços refinados, para quem a disposição brilhante de facas, garfos e colheres não tinha segredos. Do outro lado da divisória as evidências da austeridade do tempo de guerra estabelecem o forte contraste. Uma bandeja de metal com baixos relevos substitui quinze pratos e molheiras. Beliches de não apenas duas camas mas oito explicam como a capacidade civil para 3 000 pessoas aumentava para 15 000 soldados. Como essa transformação deve ter sido repugnante para os senhores dos tempos de paz! Para efetuá-la foi necessária uma emergência nacional, é claro. A sobrevivência de uma nação dependia dela. A essência da Grande Comissão hoje em dia é que a sobrevivência de muitos milhões de pessoas depende do seu cumprimento.5



Estamos em guerra. Toda essa conversa sobre o direito do cristão de viver cercado de luxos, "como filho do Rei", soa vazia nessa atmosfera — principalmente porque o próprio Rei tirou todos os trajes supérfluos para entrar na batalha. É mais proveitoso pensar em um estilo de vida "de guerra"

do que em um mero estilo de vida "simples". A simplicidade pode estar muito voltada para dentro e não trazer benefícios para ninguém mais. Um estilo de vida de guerra implica que há uma causa grande e digna, pela qual vale a pena gastar-se e ser gasto (2Co 12.15). Winter continua:

A sociedade ocidental atualmente é mais do que nunca de um salve-se-quem-puder. Mas será que isso realmente funciona? As sociedades subdesenvolvidas sofrem de certos tipos de doenças: tuberculose, subnutrição, pneumonia, parasitas, tifo, cólera, malária etc. Os países ricos praticamente inventaram um tipo completamente novo de doenças: obesidade, arteriosclerose, problemas cardíacos, derrame, câncer do pulmão, doenças venéreas, cirrose hepática, vício em drogas, alcoolismo, divórcio, crianças em risco, suicídio, assassinato. Faça sua escolha. Máquinas que economizam mão de obra provaram ser instrumentos de morte. Nossa prosperidade nos possibilitou tanto a mobilidade quanto o isolamento da família e, em conseqüência, nossas varas de família, nossas prisões e nossas instituições de saúde mental estão superlotadas. Ao salvarmos a nós mesmos praticamente perdemos a nós mesmos.

Quanto temos nos esforçado para salvar outros? Veja que o lema que nós evangélicos usamos, "Ore, contribua ou vá", permite às pessoas apenas orar, se chegarem a optar por isso! Em comparação, o Grupo de Oração dos Amigos dos Missionários, no sul da Índia, tem 8 000 inscritos nos vários grupos e sustenta 80 missionários de tempo integral no norte da índia. Se minha denominação (que tem uma riqueza per capita muitíssimo maior) fosse fazer isso bem feito,estaríamos mantendo não 500 missionários, mas 26 000. Apesar da pobreza real deles, esses irmãos indianos estão enviando 50 vezes mais missionários transculturais do que nós.6



O que quero mostrar aqui é que aqueles que estão incentivando os cristãos a buscar um estilo de vida luxuoso de tempos de paz entenderam errado tudo o que Jesus ensinou sobre dinheiro. Ele nos chamou para perdermos nossa vida a fim de a ganharmos de novo (e o contexto com certeza tem que ver com dinheiro: "Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?", Mc 8.36). A maneira a que Jesus se refere de perdermos nossa vida é cumprindo a missão de amor que ele nos deu.

Seja rico em boas ações

Isso nos leva à última exortação que Paulo faz aos ricos: "Que sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir" (lTm 6.18). Uma vez libertos do ímã do orgulho e com a esperança colocada em Deus e não no dinheiro, somente uma coisa pode acontecer: o dinheiro deles fluirá livremente para multiplicar os multiformes ministérios de Cristo.

E a minha casa de campo?

O que um pastor dirá ao seu povo sobre a compra e posse de duas casas, em um mundo em que 2 000 pessoas morrem de fome todos os dias e em que as agências missionárias não conseguem atingir mais povos não alcançados por falta de fundos? Primeiro, ele pode citar Amós 3.15: "Derribarei a casa de inverno com a de verão; as casas,de marfim perecerão, e as grandes casas serão destruídas". Em seguida ele pode ler Lucas 3.11: "Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem".

Depois ele pode contar a história da família de St. Petersburg, na Flórida, que começou a preocupar-se com a carência de moradia dos pobres. Venderam a segunda casa que tinham em outro estado e usaram o dinheiro para construir casas para diversas famílias no seu bairro.

Mais adiante ele pode perguntar: É errado ter uma segunda casa que fica vazia uma parte do ano? E responder: Pode ser que sim, pode ser que não. Não tornará as coisas fáceis criando uma lei. Leis podem ser obedecidas por coação, sem mudança de coração; o profeta quer um coração novo para Deus, não apenas transferências imobiliárias. O pastor pode mostrar empatia com a insegurança deles e compartilhar da sua própria luta para descobrir a maneira de amar. Ele não presumirá que tem uma resposta simples para cada dúvida a respeito de estilo de vida.

Mas os ajudará a decidir. Dirá: "Sua casa simboliza ou estimula um grau de luxo usufruído em face da negligência perante as necessidades dos outros? Ou é um lugar simples de retiro, usado com freqüência para o necessário descanso, oração e meditação, que devolve a pessoa à cidade com um grande desejo de negar a Si mesma em prol da evangelização dos perdidos e da busca da justiça?"

Ele lhes sensibilizará a consciência e os desafiará a buscar um estilo de vida sintonizado com o ensino e com a vida do Senhor Jesus.

Por que Deus nos deu tanto?

Em Efésios 4.28, Paulo diz: "Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir o necessitado". Em outras palavras, há três níveis de como vivemos com as coisas: 1) você pode roubar para tê-las; 2) você pode trabalhar para tê-las; 3) você pode trabalhar para ter e para poder dar.

Um número demasiadamente alto de cristãos vive no nível dois. Quase todas as forças da nossa cultura nos pressionam a viver nesse nível. Porém a Bíblia nos empurra sem descanso para o nível três. "Deus pode fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa obra" (2Co 9.8). Por que Deus nos abençoa com abundância? Para termos o suficiente para vivermos e então usar o restante para todo tipo de boa ação que alivia a miséria espiritual e física. Suficiente para nós; abundância para os outros.

A questão não é quanto alguém ganha. Grandes empresas e altos salários são uma realidade do nosso tempo, e não são necessariamente maus. Mau é ser induzido a pensar que um salário de 10 mil por mês tem de ser acompanhado de um estilo de vida de 10 mil por mês. Deus nos fez para sermos condutores da sua graça. O perigo está em pensar que o canal precisa ser revestido de ouro. Não precisa. O plástico dá conta do recado.

Vivendo à beira da eternidade

Nossa última ênfase nesse resumo deve ser esta: Em ITimóteo o, o propósito de Paulo é nos ajudar a pôr as mãos na vida eterna e não soltá-la mais. Paulo nunca perde tempo com coisas não essenciais. Ele vive à beira da eternidade. É por isso que ele vê as coisas com tanta clareza. Ele está ali como porteiro de Deus e nos trata como cristãos racionais que buscam o prazer: você quer uma vida que é vida de verdade, não é (v. 19)? Você não quer ruína, destruição e dores interiores, não é (v. 9, 10)? Você quer todo o lucro que a vida cristã pode dar, não é (v. 6)? Então use a moeda do prazer cristão com sabedoria: não deseje ser rico, contente-se com o suprimento das necessidades mínimas de uma vida em época de guerra, ponha toda a sua esperança em Deus, cuide-se para não ficar orgulhoso e deixe sua alegria em Deus transbordar em riqueza de generosidade para com o mundo perdido e carente.



NOTAS

1 T. W. MANSON, The sayings of Jesus. Londres, SCM Press, 1949, p. 280.

2 John PIPER, Love your enemies. Cambridge, Cambridge University Press, 1979. Nas páginas anteriores relacionei alguns desses exemplos.

3 Isso não contradiz a doutrina bíblica da segurança eterna das pessoas que Deus escolheu e que são nascidas de novo de verdade, doutrina essa firmemente estabelecida em Romanos 8.30. Mas implica que há uma mudança de atitude interior quando nascemos de Deus; e isso inclui evidências na maneira como usamos nosso dinheiro. Jesus advertiu repetidas vezes contra a falsa confiança que não dá fruto e no fim faz a pessoa perder ávida (Mt 7.15-27; 13.47-50; 22.11-14).

4 James STEWART, Heralds of God. Grand Rapids, Baker Book House, 1972, p. 97.

5 Ralph WINTER, "Reconsecration to a wartime, not a peacetime, lifestyle", em Perspectives on the world Christian movement. Ralph WINTER e Steven HAWTHORNE (eds.). Pasadena, William Carey Library, 1981, p. 814.

6 WINTER, "Reconsecration" p. 815.

Texto retirado do Livro:
Em Busca de Deus, (Teologia da Alegria), a plenitude da alegria cristã.
John Piper

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